sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cleonice Laurentino de Moura ( Dona Nicinha Rezadeira.)

Na Rua da Palmeira em Tibiri Fábrica, atualmente General Osório, próximo às escadarias de fronte a Escola Normal, e ao lado do casarão dos Encarregados da Fábrica Tibiry, morava Cleonice, ou "Dona Nicinha Rezadeira", como era conhecida nos 4 cantos da cidade, e até em outros municípios, já que sua clientela era diversa. Cleonice era a mais velha de 4 irmãs, a saber, Cleonice, Clarice, Egizonete, e a caçula Francisca de Assis, das quais, era intrigada de todas, pois, a personalidade forte das "Irmãs Moura", como eram chamadas nos cochichos dos moradores, as impedia de qualquer relação amigável entre si, pois, por mínima que fosse a discussão, cada uma sempre queria ser dona da razão, motivo pelo qual as fez se intrigarem entre si. 









Da esquerda para a direita: Clarice, Cleonice (de camisa listrada), Egizonete e Francisca de Assis (a de menor estatura).

Era curiosa a forma das irmãs Moura se relacionarem, pois, apesar 
de intrigadas, sempre iam juntas aos espaços sociais como igreja, mercado, festas, etc, no entanto, não davam um pio no trajeto, e quando encontravam algum(a) conhecido(a) ou alguém puxava conversa interagiam normalmente com a pessoa, mas entre elas nunca . Sem embargo, quando não tinha jeito e precisavam umas das outras, o faziam de forma genérica, como por exemplo, estando na mesa para a refeição, Nicinha dizia: "ai meu Deus, que vontade de passar uma manteiga nesse pão, mas não sei onde encontrar", a manteiga estava na frente dela, do outro lado da mesa, sendo usada por Francisca, que por sua vez dizia em voz alta: "vou colocar esta manteiga no centro da mesa, caso apareça alguém precisando usar irá encontrar aqui", e Nicinha então pegava a manteigueira, e nesse sentido elas iam se comunicando, se Egizonete fosse tomar banho e por ventura esquecesse a toalha, dizia alto: "Eita, meu Jesus, acho que roubaram a toalha do varal, pois não encontrei em canto nenhum e terei de sair do banheiro molhada", logo, Clarice que havia usado antes, pegava a toalha e pendurava na maçaneta do banheiro, respondendo em voz alta como se pensasse falando: "acabei de usar a toalha, vou deixa-la aqui na maçaneta da porta do banheiro para que seque mais rápido e ninguém pense que o ladrão a levou do varal". E assim se relacionavam as irmãs.
Nicinha era rezadeira afamada, onde, praticava o ofício sem que ninguém a houvesse ensinado, aprendera por intuição desde criança, quando na escola chegava algum colega adoentado, a mesma brincando pegava algum ramo verde, e rezava-lhe, onde, para espanto das pessoas, horas depois a criança estava disposta novamente, saltitante e serelepe. Por vezes, dizia que sua avó falecida, que também era rezadeira, lhe aparecia em sonhos e lhes ensinava as rezas que a mesma deveria desempenhar, e que eram para diversos fins: espinhela caída, olhado, cobreiro, dor de dente, cólicas menstruais, trabalho de parto difícil, torcicolo, etc. Também rezava pessoas que precisavam de emprego, amor, dinheiro, clientes para o comércio, além de rezar casas tidas como mal-assombradas.
Uma fama não muito boa que tinha Dona Nicinha era a de fofoqueira. Diziam a mesma dar conta da vida de toda a paróquia, e até mesmo do Padre, das Freiras do Hospital e até das outras Freiras que tinham um colégio no Alto das Populares, ninguém escapava à língua ferina de Nicinha rezadeira.
Quando acontecia algum crime na cidade, coisa difícil naquela época, os casos mais comuns eram de agressão física, roubo de galinha, traições matrimoniais etc, o Delegado antes de qualquer coisa, ia ter com a rezadeira, para averiguar se ela já não estivera sabendo de alguma coisa, e quase sempre sabia de fato. 

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A obsessão por informações a cerca da vida alheia era tão forte, que muitas vezes, quando era alguém conhecido(a) que procurava Nicinha para ser rezado(a), a mesma atrapalhava a reza inúmeras vezes com assuntos paralelos, tipo: "Ave Maria cheia de graça...mulher tu soubeste do que aconteceu com fulano... o Senhor é convosco.... eu quando soube fiquei estarrecida, nunca imaginei que... bendita sois vós entre as mulheres...que fulano fosse capaz de uma coisa daquelas....", ou então, durante a reza procurava saber da vida de quem estava sendo rezado, para depois assuntar com terceiros: "Estou benzendo este torcicolo no pescoço de fulana.... mulher fala a verdade, torcesse esse pescoço como?... pelo bem de Nossa Senhora, virgem imaculada, eu rezo a carne quebrada... fala a verdade mulher, eu sei que tu desmentisse esse pescoço na hora da safadeza com teu marido... em nome do Padre, do Filho e do Santo Espírito, amém...", assim ia levando a vida Nicinha, colhendo aqui, plantando ali, ouvindo acolá, levando para lá.
Mas um dia Nicinha não se deu muito bem, chegou uma das mulheres mais ranzinzas da Vila Operária Tibiri, Dona Auxiliadora, moradora da chamada "Rua 20", que era a última rua do bairro, com uma forte dor de cabeça, para que Nicinha rezasse.
Dona Çili, como era conhecida, gemia dia e noite com essa dor de cabeça que nunca passava, mas, acreditava no poder da fé e na força da reza de Cleonice, e foi ao seu encontro.
A rezadeira pediu que Auxiliadora sentasse de costas para rua, pegou um ramo de Liamba, outro de Pinhão Roxo e um de Tipi, e começou rezar a cabeça de Çili, contudo, sua língua começou a coçar, e ela não aguentando conter sua natureza de coscuvilheira, pôs-se a rezar: 
"Jesus Cristo e São Pedro Pelo Mundo andou
E São Pedro se assentou
Nossa Senhora lhe perguntou:
– O que tens tu, Pedro?
– Senhora, tenho uma dor de cabeça tão rija e tão forte
Que me parece que estou de morte.
– Pedro!
– Diz.
– Deus nasceu, Deus morreu e Deus ao céu subiu,
Bendita seja a mãe que este Filho pariu.
Eu te benzo, Maria,
Das dores de cabeça,
Como Nossa Senhora também benzia.
Em louvor de Deus e da Virgem Maria."


Ao terminar a benzedura, Nicinha disse à Çili: "mulher, eu soube de uma coisa que fiquei estarrecida, tu sabes quem é aqui no bairro, a mulher que vivia se assanhando para Dr. Virgínio Veloso Borges (na época dono da Fábrica Tibiri), e foi pega pela mulher dele na hora que a sirigaita lhe entregava um bilhete? Minha filha olhe, disse que foi uma pisa tão grande que a rameira levou da esposa dele, que até hoje ela manda de uma perna, tu sabes quem foi essa?"
Auxiliadora deu um pulo da cadeira, ficou vermelha, ofegante, já não reconhecia mais ninguém, só via uma névoa na sua frente, as carnes lhe tremiam mais do que vara verde, e com a voz embargada disse: "Olhe Nicinha, fofoqueira de ponta de rua, antes de sair dizendo o que não sabe, procure se certificar com quem sabe. Essa pessoa que você está falando sou eu, mas, jamais eu teria caso com Dr. Virgínio, nem com nenhum outro homem casado, porque eu sempre fui muito bem casada, e nada disso aconteceu, muito menos levei surra de ninguém. Aconteceu de eu entregar um bilhete ao mesmo, com o nome do meu irmão, pedindo emprego para ele na fábrica, e a esposa do Doutor viu e pediu para ver o papel, mas quando viu de que se tratava sorriu e se retirou, não teve nada disso. Olhe Nice, vou lhe rogar uma praga e minhas pragas pegam viu!? Por conta das suas fofocas, sua língua vai crescer tanto que quando você morrer, seu corpo vai no caixão e sua língua em cima de uma carroça dentro de outro ataúde, e vão ter que cavar duas covas, uma para você, outra para sua língua".

Após o incidente, Auxiliadora se retirou, e Nicinha teve que ser acudida pelos vizinhos que ouviram a confusão, e perceberam a rezadeira pálida e sem forças para se manter em pé.
Passaram-se os anos, e Nice foi ficando depressiva, silenciosa, reclusa, falando muito pouco, apenas o necessário. As maldades que a velha rezadeira fazia, como guardar um penico de ágata cheio de urina atrás da porta da frente, para jogar nas costas dos meninos que passavam gritando na calçada, já não fazia mais. A vara de goiabeira que guardava no fumeiro, em cima do fogão de carvão, que servia para bater nos gatos que vinham roubar carne seca, jogou fora, e passou à viver reclusa no seu quarto, de onde só saia para tomar banho ou fazer necessidades fisiológicas, pois até sua comida quem passou à lhe dar foi sua irmã Francisca, que colocava o prato por debaixo da porta.

Um dia, mais precisamente um domingo de manhã, logo após a Missa das 5h da manhã, correu um boato começando na porta da Igreja Matriz, entre as paroquianas que se reuniam todo domingo em baixo da torre para falarem da vida alheia. Esse boato dava conta de que Nicinha rezadeira havia falecido na noite anterior, e rapidamente o disse me disse tomou conta da cidade. Pessoas começaram chegar, curiosas, rondando a frente da casa, outras fingindo estarem tomando uma sombra embaixo das árvores, outras descaradamente paravam em frente à Escola Normal, cruzavam os braços e aguardavam alguma notícia oficial por parte das irmãs Moura, e aos poucos, tanto a Rua da Palmeira, quanto a José de Alencar que é na sua frente, divididas apenas pela linha férrea, iam se enchendo de gente, mas a casa permanecia fechada.
Finalmente, às 17hs, hora em que geralmente a maioria dos enterros acontecem, parou na porta da rezadeira uma carruagem funerária, algo nunca visto na cidade,  puxada por dois grandes cavalos Manga Larga, e condutor vestido elegantemente de terno preto. As pessoas começaram se aproximar do veículo, que teve que ser alugado em Recife, já que nem em Santa Rita, muito menos em João Pessoa dispunham de tal, e o silêncio reinou, ouvia-se apenas o barulho das pisadas da grande multidão se aglomerando sob a poeira que se formara na rua ainda de barro, sem calçamento. 
Finalmente, às 17:20h, Egizonete, vestida de preto, com um véu da mesma cor na cabeça e terço na mão, abre a porta de rolo da sua casa,  e sem dizerem uma palavra sequer, as irmãs saíram sem a presença de Nicinha do seu lado. Ao passo que, por último, saíram da casa o condutor do veículo funerário, junto com seu ajudante, carregando um caixão de tecido roxo, e o depositaram no interior da carruagem. As pessoas se olhavam, algumas com ar de tristeza, outras de surpresa, quando, sem que esperassem, o condutor entrou mais uma vez à casa, e saiu com outro caixão, este menor, medindo cerca de 1,20m, que gerou um espanto coletivo, seguido de uníssono "Óóóóóóóóóóóóóóóóóó", pois, as pessoas sabiam da praga que Çili rogara há mais de 30 anos passados, mas que pensavam ser uma lenda urbana. Cabisbaixas, as irmãs entraram na carruagem funerária, sendo Francisca a última, que, antes de subir, virou-se para a multidão e disse em voz alta: "Por gentileza, não nos sigam. Cleonice não será sepultada no Cemitério Público, nem na Igreja, iremos sepulta-la num lugar onde a mesma determinou antes de morrer e deixou por escrito, agradeço a compreensão". E a carruagem seguiu, puxada pelos dois cavalos, perdendo-se de vista por entre a poeira da rua sem calçamento, e tomando destino ignorado.
Até hoje, o que se ouve dos boatos da época, é que, com vergonha de terem que enterrar a irmã em uma cova, e sua língua em outra, as irmãs Moura fizeram o sepultamento de Nice em um cemitério fantasma, que fica entre o Sítio Reis da Usina São João, e os limites com o vizinho Município de Cruz do Espírito Santo, onde só há ali cerca de 7 catacumbas, duas delas são: uma a de Nicinha, e a outra da sua língua.

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

VIOLINA MARIA DA CONCEIÇÃO (*1900 +1989) (Continuação....)

Como prometido, após a primeira parte em que contamos da vinda de Violina de Portugal para Santa Rita, PB, segue o restante da sua história....



Feminista por convicção e por natureza, Violina sempre mostrou-se aguerrida em defender a igualdade de direitos, e a capacidade das mulheres em exercerem atividades consideradas exclusivamente masculinas. Por conta disso, à casa de Violina sempre iam muitas mulheres, de “Senhoras de Família” abastadas, que violentadas pelos próprios esposos dentro de casa, ou reduzidas suas capacidades à famosa “do lar” na hora de professar seus ofícios, para ali encontrarem um refúgio para suas lágrimas, mesmo que de forma abscôndita, na calada da noite para não serem vistas, como também iam senhoras mais simples, com dores e penas análogas, às “Raparigas Retirantes”, como eram chamadas as prostitutas da época, que não tinham ponto ou lar fixos, e eram obrigadas aventurar pelos Cabarés mundo afora, fazendo temporada, umas por gosto, outras por sobrevivência, todas, sem exceção ou distinção, encontravam naquela casa simples da Volta do Quimba, literalmente uma “sombra” para descansarem seus penares e receberem doses de autoestima e empoderamento. Dizia-se na época, que os homens ficavam plácidos e ressabiados, ao tomarem conhecimento que suas companheiras se bandearam pros lados da Usina São João, pois temiam terem ido à “Casa da Portuguesa”, e de lá voltado insubordinadas e donas de si. Um grande mistério rondava a vida de Violina o fato de ter sido casada 7 vezes, e em todas as 7 enviuvado. Sempre, seus esposos foram acometidos de morte súbita de formas mais ilógicas possíveis, à exemplo de João Tavares, comerciante, que aos seus 35 anos de idade chupava mangas embaixo de uma das centenárias árvores ao redor da casa, quando caiu liquidado, sem ter demonstrado qualquer problema de saúde antes, e Antonio Relojoeiro, que tinha uma pequena oficina de conserto de relógios na Rua do Cantinho, que dormiu para a eternidade num fim de tarde, quando após a Ave Maria das 18hs, cantada todos os dias por Amália Rodrigues numa rádio Portuguesa, que eles ouviam no rádio de ondas curtas deixado de herança pelo pai de Violina, onde, ao engrunhir num aparente cochilo, foi percebido seu corpo gélido depois de duas horas sem acordar, ou Silvio Pedro, contra-mestre de tecelagem da Companhia de Tecidos Paraibana (Fábrica Tibiry), que pendeu inerte sobre a latrina, na casinha nos fundos do quintal, logo após ter obrado. Sobre o Pai de Violina, Sr. Joaquim, seu decesso se deu por um derrame cerebral fulminante, no portão de entrada da Usina São João, quando o mesmo foi buscar uma garrafa de mel de engenho para fazer doce de jaca mole. Seu corpo foi sepultado num cemitério que fica às margens da estrada de barro, após o Sítio Reis, na mesma localidade. Ainda com relação às suas 7 viuvezes, além da curiosidade das mortes súbitas dos maridos, o que pode ser considerado o maior mistério da vida de Violina, era que, a mesma nunca permitia que ninguém preparasse os corpos dos defuntos para serem velados, ela mesma fazia todo o serviço, de forma recôndita, às portas fechadas, e, como nas casas antigas as paredes não chegavam até a cumeeira, dava para ver que, em cima do guarda-roupas, sempre ela colocava uma caixa, feita de madeira, e com um pequeno cadeado fechando, como se colecionasse aquelas caixas após o falecimento de cada esposo. O que tinha dentro daquelas caixas? Só Deus sabe! Várias eram as especulações e estórias que as fofoqueiras da Paróquia criaram em torno desse fato, inclusive, inventaram o epíteto de “7 caixas”, chamando (pelas costas é claro), de “Violina 7 Caixas”. Um belo dia, à sombra de um pé de Fruta-Pão, que ficava à direita da casa, Violina bordava um vestido de linho branco, quando para à sua frente uma mulher com seus 30 anos de idade, considerada “coroa” para a época. Violina ficou boquiaberta com a figura daquela mulher, que tinha aproximadamente 1,70m de altura, corpo cheio, mas não gorda, com um vestido na altura dos joelhos vermelho, decotado, cujos seios pinchavam do decote, nos ombros um belo xale Português preto de seda, nos pulsos muitas pulseiras douradas, brincos extravagantes, um anel mais excêntrico ainda com uma enorme pedra vermelha, adornava o dedo da mulher, seus lábios volumosos estavam bem evidenciados pelo rubor do batom, na tonalidade mais forte de vermelho, e sua pele branca, sem rugas, parecia uma porcelana, trazia traços de Rouge Carmim, sem falar no perfume que provavelmente podia ser sentido léguas de distância, nos seus cabelos volumosos e cortados em camadas até a cintura, uma grande flor vermelha com um friso, adornava o lado direito, deixando a orelha à mostra. Ô de dentro, disse a mulher, ô de fora, respondeu Violina, a senhora poderia me dar um copo d’água, por gentileza? Perguntou a mulher. A partir daí, começou uma conversa entre as duas que durou 3 meses. Tratava-se de uma “Rapariga Retirante” de nome de guerra “Isolda Pele de Veludo”, mas na verdade seu nome de batismo era Cleidauçira, natural de Recife, vinha fugida de um Cabaré da Rua da Guia, naquela cidade, onde teve que dar aos calcanhares, após ser ameaçada de morte por um Coronel importante de lá, que, apaixonado, queria abandonar a família para se amigar com Isolda, e a mesma achou tão absurdo que caiu em retirada. As histórias daquela mulher encantaram Violina, pois, assim como ela, via naquela mulher-personagem, a prefiguração da insubordinação ao machismo e aos padrões ditados pelas tidas como “pessoas de bem da sociedade”, que primavam pela moral e bons costumes, mas, nos esconsos dos seus lares, praticavam toda sorte de infortúnios de causarem escândalo até no Tinhoso. Violina deu uma ideia lucrativa à Isolda, que mudou totalmente a vida daquela cortesã, que foi, fundar um Cabaré na Volta do Quimba, no entanto, a coparticipação da Portuguesa deveria ficar em segredo. Violina arquitetou tudo, promoveu o encontro amoroso de Isolda com um figurão importante da época, um homem influente que, ao pedir ao dono da Usina, que cedesse uma casa que estava desocupada, próximo à mata na Volta do Quimba, para que Isolda ali morasse, o mesmo não fez objeção, e cedeu o imóvel. Ali fundava-se o afamado Cabaré da Usina, ou Cabaré da Volta do Quimba, como era conhecido. Violina estava feliz e satisfeita, e nos dias em que o estabelecimento não atendia clientes, geralmente às segundas feiras, ia visitar a amiga e dar boas gargalhadas das histórias contadas por Isolda e suas “Pombinhas”, que ao todo eram 8 mulheres, todas com sonhos, dramas, e história para contar. Naquele ambiente, a função social de conselheira e professora de Violina era exercida na sua plenitude, pois a mesma além de alfabetizar as moças que ali chegavam sem nenhuma escolaridade, ou com baixa leitura, lhes servia de conselheira, a tal ponto que chamavam-lhe de “Mainha Vió”. Violina não sabia, mas 10 anos após acolher Isolda, a mesma lhe fez uma grande surpresa, deu-lhe de presente uma boa quantia em dinheiro, fruto das economias que fez, de cada cliente que a procurava em busca de amor passadiço, para com esse dinheiro, a Portuguesa realizar seu atual sonho, que era voltar à sua terra natal para findar seus dias.

Assim se fez, em 1980, Violina embarca na cidade do Recife, num voo para Portugal, com 80 anos de idade, muita história, recordações, e suas 7 caixas na bagagem, no Hall do Aeroporto, choravam na despedida Isolda, suas 8 “Pombinhas”, duas freiras progressistas missionárias amigas de Violina, que moravam em Cruz do Espirito Santo, e um influente comerciante de Santa Rita que por anos foi amante da mesma. Violina faleceu em 1989 em um chalé, nos arredores de Mêda, deixando apenas suas lembranças na sua passagem de vida entre Portugal-Brasil, Mêda-Santa Rita. Isolda foi embora, de Santa Rita na década de 1990, após o fechamento do Cabaré da Volta do Quimba.




(Esta é uma estória de ficção. Qualquer semelhança com as personagens e os fatos são mera coincidência)

VIOLINA MARIA DA CONCEIÇÃO (*1900 +1989)

Nos arredores da "Volta do Quimba", caminho da Usina São João, viveu uma das mais emblemáticas e enigmáticas figuras que a Rainha dos Canaviais já conhecera. Trata-se de uma Portuguesa, nascida na cidade de Mêda, num chalé simples, ao lado da Torre do Relógio, e trazida para Santa Rita ainda adolescente, aos 14 anos de idade, Violina veio com seu pai Joaquim Rodrigues, fugidos da 1a Guerra Mundial, onde o mesmo assumiu o posto de Mestre de Caldeira da citada Usina, e receberam uma casa simples para morarem, no contorno que por coincidência trazia o nome de Volta do Coimbra, mas, popularmente era e ainda é chamado de "Volta do Quimba". Sua Mãe, Maria Rodrigues da Conceição, falecera de Tifo ainda em Portugal, 3 meses antes da vinda da família para Santa Rita. A casa de Violina era uma casa modesta, cercada de frondosos pés de Manga, alguns centenários, que faziam sombra do nascer ao por do sol em todos os lados da casa. as paredes de tijolos maciços rebocadas com barro, permaneciam úmidas o ano inteiro, devido as sombras das Mangueiras, e a água em abundância que permeava o solo do local, em que, se cavando 2 metros já dava água. O terreiro da casa sempre bem varrido e arejado, onde galinhas passavam o dia ciscando, trazia um clima de paz e tranquilidade para o derredor da residencia. No fundo do quintal, a "casinha", feita de taipa e coberta de palhas de coqueiro. A cozinha muito simples, comportava um fogão de carvão, feito de barro e tijolos, uma "bateria de alumínio", onde as panelas eram penduradas, sempre muito areadas, uma mesa, 4 tamboretes, uma forma grande e um pote médio reservavam a água, e um Petisqueiro guardava os pratos na parte superior, e mantimentos na inferior. Nos quartos camas com colchões de palha e lençóis de chita, sempre cheirosos à sabão de coco, e na sala, uma cuspideira atrás da porta, um jarro com um pé de comigo-ninguém-pode no canto, quadros com retratos de familiares na parede, uma namoradeira de palhinha, uma mesa forrada por uma toália bordada, com um jarro de flores, uma quartinha com um copo, e um rádio "rabo quente" de ondas curtas, adquirido em 1922, onde podia ouvir a Rádio Lisboa, e matar saudades da sua terra ao som dos Fados. Espalhados pela casa, lampiões à querosene pregados nas paredes iluminavam durante a noite.


Violina fez o Pedagógico e tornou-se professora, donde veio alfabetizar boa parte dos ticuqueiros* da Usina, vizinhos, e qualquer pessoa que a procurasse, tendo troncos de árvore como cadeiras, o terreiro da sua casa como sala de aula, e a parede como lousa. Mais tarde, como tornou-se afamada pelas suas alfabetizações, o proprietário da Usina a contratou como professora, e a mesma ia no trem que levava cana de açúcar, para dar aula em outras usinas e povoados próximos, pertencentes à Companhia Industrial. (Breve continuarei a curiosa história de vida de Violina)

*Ticuqueiros: Trabalhadores da cana-de-açúcar. Diz-se aqueles(as) que trabalham na "palha da cana", cortando e limpando a planta, a ser recolhida e manufaturada pela Usina.

CATARINO, o Rapaz-Velho.

Catarino era um rapaz-velho, do Alto das Populares, só via pelo olho esquerdo, e falava pelo canto da boca, tão baixo e ligeiro que muitas vezes não se conseguia entender o que ele dizia. Catarino a vida toda só usou calça marrom, camisa caqui, e alpercatas de couro com os dedos de fora, parecia uma farda de antigo vigia de rua.

Só vivia trancado dentro de casa, as pessoas só viam Catarino, na missa de domingo na Igreja das Graças, na feira às 04:30 da madrugada, ou na festa de finados. Um dia, na dita festa Catarino enlouqueceu, ao visitar o cemitério Santas Almas, deparou-se com um túmulo, onde uma foto de loiça reluzia sobre a fria lápide, na foto os dizeres: “Aqui jaz Antonio Estivador, viveu pelo seu trabalho, dignou-se resignado, morreu de amor. Descanso eterno daí-lhe Senhor, a luz perpétua e o esplendor.”, seguido da data do seu falecimento, que contava de sete dias anteriores àquele. Catarino deu um escândalo, chorou, jogou-se no chão, sujou-se com o pó do chão de barro. Os gritos de Cararino ecoaram e fizeram parar até a roda gigante do Olinda Parque. O homem do Bozó parou, o vendedor de rodetes ficou boquiaberto, as viúvas que rezavam seus terços não sabiam mais se estavam no primeiro ou no quinto mistério, a boca de som da roda gigante silenciou, o balançador de canoas parou, o casal que comprava maçã de amor deixou cair o dinheiro da mão do vendedor que também estava com os olhos arregalados, a mulher que acendia velas queimou os dedos na chama do fósforo que com o seu espanto, parado ficou. Pobre Catarino, parecia que o mundo inteiro estava em pausa, como num filme, e só Catarino, com o seu desespero, aos prantos, aos gritos, rodando com a mão na cabeça olhando para a abóbada celeste pontilhada de estrelas, como se buscasse uma resposta para a sua aflição. Catarino descalçou-se das suas alpercatas arregaçou as pernas da sua calça marrom, rasgou no próprio peito sua camisa caqui, e rumou, correndo pela ladeira, ainda de barro, do Planalto, passando aos gritos pela porta de Igreja do Rosário, cuja missa também havia silenciado e os fiéis do lado de fora, estupefatos, acompanhando com olhares atentos o clamor de Catarino, que rumou e adentrou à mata da Usina São João, e até a presente data, 58 anos depois, nunca mais viu-se ou se ouviu falar em Catarino.



Antonio Estivador ou Tonho Balaieiro (Antonio Cenezério Esteves de Aguiar)



Nasceu em 20 de agosto de 1901, na Usina Tiúma, São Lourenço da Mata, PE, onde desde criança teve que trabalhar para ajudar na subsistência da família. Mudou-se para Santa Rita, Pb, no ano de 1935, para trabalhar na Ticuca da “paia da Cana” na Usina Santa Rita, no entanto, ali trabalhou por apenas dois anos, devido um novo emprego que conseguira na Estiva do Porto de Cabedelo.


Neto de africanos que vieram para Pernambuco no Século XIX, Antonio era um homem negro, de estatura mediana porém de poderosa força braçal, e vigor físico, de hábitos rotineiros e simples. Acordava sempre antes de o sol nascer, e recolhia-se para dormir junto com as galinhas, como dizia antigamente das pessoas que dormiam cedo. De poucas palavras, o estivador não tinha circulo de amigos, apenas conhecimento com alguns vizinhos que, quando muito, conseguiam um cumprimento por um “bom dia” ou algum breve comentário sobre o clima meteorológico, do tipo: “tá frio hoje né?!”.


Com a idade chegando, Antonio já não conseguia com tanta agilidade manusear as sacas de café, açúcar, algodão, etc, que fizera no Porto por mais de duas décadas, e deixou o trabalho de estivador, bem como sua residência na Vila da Usina, e passou à morar em uma pequena casa de dois cômodos, erguida de taipa com o telhado coberto de palhas, na localidade chamada de “Papo da Coruja”, próximo ao Mercado Público de Santa Rita, onde começara mais uma etapa de sua vida, trabalhar como balaieiro, carregando frutas, verduras e cereais, tanto para os comerciantes, quanto para os clientes que o pagavam para deixar suas feiras em casa.


Antonio não tinha hábitos sociais, a única vez que ele era visto em algum evento, era durante o Carnaval, onde o mesmo se assentava sob um pé de Flamboyant em frente ao Coreto da Praça, com um cigarro de fumo preto, chamado “Boró”, e uma meiota de aguardente, discretamente enrolada em um jornal para esperar a passagem do bloco carnavalesco “Sapato de Pobre é Tamanco”, onde assistia sem nenhuma feição de tristeza ou alegria, quieto, sentado no seu lugar, apenas observando e, vez por outra, dando uma discreta golada no aguardente.


Foi numa dessas saídas, que Antonio conheceu um outro senhor, um “rapaz-velho” igualmente reservado tanto em aparições públicas, quanto em palavras, chamado “Catarino”, que vinha apressado da missa na Igreja Matriz, no afã de chegar logo em casa, e ao passar em frente ao coreto, deparou-se com o balaieiro sentado sob o Flamboyant, na sua única aparição anual em evento público, e ao fixarem-se os olhares por todo o percurso de passagem de Catarino por aquele lugar, culminou com um “Boa Tarde” em uníssono, tanto no proclamar da frase, quanto no erguer o chapéu em sinal de cumprimento, como se os dois estivessem em um jogral milimetricamente ensaiado.


Catarino ficou tão atordoado após a fatídica troca de cumprimentos que, atravessou a rua, todo desengonçado, como que pisando em buracos, procurando chão e não encontrando, quase foi atropelado pela Marinete que era chamada popularmente de “Sopa” e fazia o transporte de passageiros entre Santa Rita e João Pessoa, vindo finalmente, cair por cima de Seu Pedro Engraxate, que tinha uma banca de engraxar sapatos ao lado do Pavilhão Central, obviamente, atordoado pelo incidente.


Um belo dia de domingo, às 04hs da manhã, horário em que o sol ainda ia rasgar o firmamento e anunciar a alvorada de mais um dia, Catarino, que metodicamente o fazia de janeiro a janeiro, vai fazer sua feira de semana, compra bacalhau (que na época era iguaria das classes menos abastadas), verdura fresca, batatas, farinha, e pede a “banda mindinha” de uma galinha de capoeira da banca de dona Rosidalva da Galinha, tudo devidamente acomodado em duas sacolas de agave, já que na época não existiam sacolas plásticas descartáveis. Ao passar pela feira do peixe, o dia já clareando, Catarino põe a mão no ombro de um senhor que estava sentado de costas em um tamborete, fumando um boró, com um balaio do lado, e ao se virar, as duas sacolas caíram das mãos do rapaz-velho, cuja voz quase não sai para perguntar: O senhor poderia levar minha feira?

Após esse dia, populares contam que, Antonio Estivador entrava na casa de Catarino todo domingo às 5hs da manhã, levando a feira, e só saia no alvorecer da segunda-feira. Fato que ocorreu religiosamente por 10 anos.


Havia uma curiosidade sobre o estivador que apenas os poucos vizinhos que ele teve durante a vida sabiam, dizia ele ter o dom da premonição, e sabia o dia e a hora que morreria, portanto, já tinha em seu guarda-roupas a mortalha, o caixão já estava pago, e o jazigo comprado e zelado.


No dia 26 de outubro de 1969, um domingo, clientes e comerciantes do Mercado Público sentiram a falta de seu Antonio Balaieiro, e comentavam entre si, pois, por décadas, ele nunca faltou ao seu trabalho autônomo, nem a hora de chegar, e nem a de voltar pra casa, sempre às 16hs após tomar um café coado na bodega e fumar um Boró, mas naquele dia todas as horas foram contadas, e nada de Antonio. Catarino fez sua feira rotineira, passou 5 vezes pelo mesmo local onde sempre o balaieiro pegava sua feira e levava à sua casa, mas sem sucesso, fazendo o rapaz-velho ter que contratar o serviço de outra pessoa, mas, à passos curtos e lentos, foi até o fim da rua olhando para trás, na vã tentativa de ver por entre os bancos surgir a figura do estivador.


Ao final da tarde, alguns comerciantes se juntaram e foram até o papo da coruja, em busca de notícias de seu Antonio, ao chegarem na casa de taipa, a porta da frente estava fechada, chamaram, bateram palmas, “ô de dentro...ô de dentro...”, ninguém respondia, arrodearam, a porta dos fundos estava aberta, e o fogão de carvão que ficava do lado de fora, em um peque no alpendre de paus coberto de palhas, ainda estava morno, com as últimas brasas cobertas de cinzas, e ao entrarem na casa, encontraram, deitado em um colchão de palhas, vestido com sua mortalha, o corpo inerte de Antonio Estivador, devidamente asseado, com os dedos das mãos cruzados sobre o peito, e embaixo das mesmas três papéis, um era o recibo da funerária, onde constava o caixão pago, outro o recibo do túmulo, e o último algumas linhas escritas os seguintes dizeres: “Aqui jaz Antonio Estivador, viveu pelo seu trabalho, dignou-se resignado, morreu de amor. Descanso eterno dai-lhe Senhor, a luz perpétua e o esplendor”.


Catarino só soube da morte de Antonio sete dias depois, no domingo do dia 02 de novembro de 1969, dia de finados.

ADALZIRA LISBOA (Adalza).

Viveu em Santa Rita até meados de 1960, quando, envergonhada por suas atitudes estranhas, sua família mudou-se, tomando destino ignorado. Filha de bodegueiro e enfermeira, a moça de família conhecida, passou à ser acometida de um mal súbito que a fazia perder os sentidos, em pleno Mercado Público, sempre aos domingos antes da missa das 06 da manhã, quando a mesma vestia uma saia de cambraia, bem engomada, e blusa de mangas curtas de linho branca, com flores azul-claras bordadas na gola, alpercatas de meio salto, e sacola de agave, onde trazia sua feira. Adalza era muito observada e não passava despercebida, sua tez alva como neve, altura de 1,50m e delicadeza, desmaiava na encruzilhada que corta o mercado, só vindo recobrar os sentidos após ser transladada para algum lugar seguro, pelos braços robustos e suados dos estivadores, balaieiros, e receber àgua, atenção e afago dos verdureiros e marchantes que ali trabalhavam, e se preocupavam até em não sujar a fina cambraia da saia de Adalza. Pobre Adalza. Sua mãe ficava deveras rubra ao tomar conhecimento dos passamentos da filha, e mais ainda ao saber sob quais condições ela tornava. Um dia Adalza apareceu grávida, provavelmente, fruto dos instantes de lapso e vulnerabilidade dos seus passamentos. A família, envergonhada, partiu de Santa Rita com destino ignorado, e a distinta Adalzira Lisboa, ficou lembrada pelos estivadores, comerciantes e paroquianos como "Adalza, a boa".





Rosélia de Dona Nôta (Catôtinha)

Santaritense, moradora da Rua Dr. Pedrosa, ao lado do Cine Alvorada (antigo Cine Purga). Moça-velha, catolicíssima, vulto folclórico pelo seu estilo peculiar, usava sempre vestidos do mesmo modelo, diferenciando apenas pelas cores, o corte reto, saia pregueada semi-godê, com cintura alta, quase na altura das axilas, evidenciando seus seios fartos e, o tecido era um só, o mais puro e engomado linho. Rosélia era uma mulher de 35 anos de idade , solteira, naquele tempo já era Moça-velha quem tinha essa idade e fosse solteira, cabelos sempre brilhosos, besuntados com óleo de coco, e com grossa trança até a cintura, rosto forte, com suas sobrancelhas grossas, óculos de armação grossa, chamado "fundo-de-garrafa", bigodes ralo de pelos finos, e um sinal no queixo, de onde eclodiam quatro grossos pelos, dava-lhe uma aparência de 20 anos mais velha e semblante bruxesco. Catôtinha foi um apelido posto pelos meninos traquinos da rua, que, ao descobrirem que a irritava o codinome, tomaram conta, não chamando mais pelo seu nome civil. Rosélia, tinha um comportamento peculiar, que foi sua marca de afamação, sempre na primeira sexta feira do mês, o pároco da época, Monsenhor Abdon Melibeu, celebrava a Missa do Sagrado Coração de Jesus, a qual, a distinta celibatária participava com afinco e devoção, sempre com um delicado véu branco, feito de renda de bilros, cobrindo-lhe a cabeça, como de costume épico. Até então, a história dessa senhora estaria comum aos do seu tempo, não fosse o fato de, na hora dessa missa das primeiras sextas-feiras, no momento em que o pároco rezava, em latim e de costas, como na época, a oração: "por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós Deus Pai, Todo-poderoso...", a resposta de "amém" da assembléia era interrompida pelo grito eufórico de Catôtinha, que arrancava o véu, desfazia a grossa trança, "abalaiando" os cabelos sacudindo a cabeça para os lados, ficava descalça, batia os pés feito criança birrenta, levantava os braços e gritava: "EU QUERO SER DESGRAÇADAAAAAAA...", como os paroquianos já sabiam dessas crises de Catôtinha, não se abalavam muito, mas, o que se seguia deixava a família deveras em polvorosa, a jovem senhora partia rua afora, rumo à feira do "Rala-Bucho", na esquina do cemitério, e lá é que o escândalo era maior. Catôtinha ia de barraca em barraca, desesperada, descabelando-se, e gritando que queria ser "desgraçada", até que os comerciantes à levassem para casa. Um dia, numa dessas crises, ao se dirigir à feira, um caminhoneiro do Sul do país, vindo de Sapé com um carregamento de abacaxis, gentilmente abriu a porta da sua boléia, e convidou a moça para entrar. Após este ocorrido, passaram-se 20 anos sem ter noticias de Catôtinha em Santa Rita, até que, numa primeira sexta feira do mês, já com outro pároco, desta vez, Pe. Paulo Koellem, um grupo de 15 jovens, 8 rapazes e 7 moças, todos bem afeiçoados e bem nutridos, assistiam à missa, ocupando os dois primeiros bancos da igreja, sob os olhares curiosos de algumas carolas assunteiras que perguntavam, quem é esse povo? Ao passo que, outras devotas já bem informadas, responderam: "são os filhos de Rosélia de Nôta ". Espantada, Ismerenciana, que era a mais fofoqueira de todas, pensou em voz alta e, com as mãos no rosto deixou escapar: "Meu Deus, pobre Catôtinha, foi desgraçada mesmo !". Toda a igreja olhou para Ismerenciana com rubor nas faces e lábios trêmulos, beirando uma risadagem coletiva.

O MENINO QUE MANDOU CELEBRAR MISSA DE 7º DIA DA SUA VIZINHA AINDA VIVA.

  No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era...