Feminista por convicção e por natureza, Violina sempre mostrou-se aguerrida em defender a igualdade de direitos, e a capacidade das mulheres em exercerem atividades consideradas exclusivamente masculinas. Por conta disso, à casa de Violina sempre iam muitas mulheres, de “Senhoras de Família” abastadas, que violentadas pelos próprios esposos dentro de casa, ou reduzidas suas capacidades à famosa “do lar” na hora de professar seus ofícios, para ali encontrarem um refúgio para suas lágrimas, mesmo que de forma abscôndita, na calada da noite para não serem vistas, como também iam senhoras mais simples, com dores e penas análogas, às “Raparigas Retirantes”, como eram chamadas as prostitutas da época, que não tinham ponto ou lar fixos, e eram obrigadas aventurar pelos Cabarés mundo afora, fazendo temporada, umas por gosto, outras por sobrevivência, todas, sem exceção ou distinção, encontravam naquela casa simples da Volta do Quimba, literalmente uma “sombra” para descansarem seus penares e receberem doses de autoestima e empoderamento. Dizia-se na época, que os homens ficavam plácidos e ressabiados, ao tomarem conhecimento que suas companheiras se bandearam pros lados da Usina São João, pois temiam terem ido à “Casa da Portuguesa”, e de lá voltado insubordinadas e donas de si. Um grande mistério rondava a vida de Violina o fato de ter sido casada 7 vezes, e em todas as 7 enviuvado. Sempre, seus esposos foram acometidos de morte súbita de formas mais ilógicas possíveis, à exemplo de João Tavares, comerciante, que aos seus 35 anos de idade chupava mangas embaixo de uma das centenárias árvores ao redor da casa, quando caiu liquidado, sem ter demonstrado qualquer problema de saúde antes, e Antonio Relojoeiro, que tinha uma pequena oficina de conserto de relógios na Rua do Cantinho, que dormiu para a eternidade num fim de tarde, quando após a Ave Maria das 18hs, cantada todos os dias por Amália Rodrigues numa rádio Portuguesa, que eles ouviam no rádio de ondas curtas deixado de herança pelo pai de Violina, onde, ao engrunhir num aparente cochilo, foi percebido seu corpo gélido depois de duas horas sem acordar, ou Silvio Pedro, contra-mestre de tecelagem da Companhia de Tecidos Paraibana (Fábrica Tibiry), que pendeu inerte sobre a latrina, na casinha nos fundos do quintal, logo após ter obrado. Sobre o Pai de Violina, Sr. Joaquim, seu decesso se deu por um derrame cerebral fulminante, no portão de entrada da Usina São João, quando o mesmo foi buscar uma garrafa de mel de engenho para fazer doce de jaca mole. Seu corpo foi sepultado num cemitério que fica às margens da estrada de barro, após o Sítio Reis, na mesma localidade. Ainda com relação às suas 7 viuvezes, além da curiosidade das mortes súbitas dos maridos, o que pode ser considerado o maior mistério da vida de Violina, era que, a mesma nunca permitia que ninguém preparasse os corpos dos defuntos para serem velados, ela mesma fazia todo o serviço, de forma recôndita, às portas fechadas, e, como nas casas antigas as paredes não chegavam até a cumeeira, dava para ver que, em cima do guarda-roupas, sempre ela colocava uma caixa, feita de madeira, e com um pequeno cadeado fechando, como se colecionasse aquelas caixas após o falecimento de cada esposo. O que tinha dentro daquelas caixas? Só Deus sabe! Várias eram as especulações e estórias que as fofoqueiras da Paróquia criaram em torno desse fato, inclusive, inventaram o epíteto de “7 caixas”, chamando (pelas costas é claro), de “Violina 7 Caixas”. Um belo dia, à sombra de um pé de Fruta-Pão, que ficava à direita da casa, Violina bordava um vestido de linho branco, quando para à sua frente uma mulher com seus 30 anos de idade, considerada “coroa” para a época. Violina ficou boquiaberta com a figura daquela mulher, que tinha aproximadamente 1,70m de altura, corpo cheio, mas não gorda, com um vestido na altura dos joelhos vermelho, decotado, cujos seios pinchavam do decote, nos ombros um belo xale Português preto de seda, nos pulsos muitas pulseiras douradas, brincos extravagantes, um anel mais excêntrico ainda com uma enorme pedra vermelha, adornava o dedo da mulher, seus lábios volumosos estavam bem evidenciados pelo rubor do batom, na tonalidade mais forte de vermelho, e sua pele branca, sem rugas, parecia uma porcelana, trazia traços de Rouge Carmim, sem falar no perfume que provavelmente podia ser sentido léguas de distância, nos seus cabelos volumosos e cortados em camadas até a cintura, uma grande flor vermelha com um friso, adornava o lado direito, deixando a orelha à mostra. Ô de dentro, disse a mulher, ô de fora, respondeu Violina, a senhora poderia me dar um copo d’água, por gentileza? Perguntou a mulher. A partir daí, começou uma conversa entre as duas que durou 3 meses. Tratava-se de uma “Rapariga Retirante” de nome de guerra “Isolda Pele de Veludo”, mas na verdade seu nome de batismo era Cleidauçira, natural de Recife, vinha fugida de um Cabaré da Rua da Guia, naquela cidade, onde teve que dar aos calcanhares, após ser ameaçada de morte por um Coronel importante de lá, que, apaixonado, queria abandonar a família para se amigar com Isolda, e a mesma achou tão absurdo que caiu em retirada. As histórias daquela mulher encantaram Violina, pois, assim como ela, via naquela mulher-personagem, a prefiguração da insubordinação ao machismo e aos padrões ditados pelas tidas como “pessoas de bem da sociedade”, que primavam pela moral e bons costumes, mas, nos esconsos dos seus lares, praticavam toda sorte de infortúnios de causarem escândalo até no Tinhoso. Violina deu uma ideia lucrativa à Isolda, que mudou totalmente a vida daquela cortesã, que foi, fundar um Cabaré na Volta do Quimba, no entanto, a coparticipação da Portuguesa deveria ficar em segredo. Violina arquitetou tudo, promoveu o encontro amoroso de Isolda com um figurão importante da época, um homem influente que, ao pedir ao dono da Usina, que cedesse uma casa que estava desocupada, próximo à mata na Volta do Quimba, para que Isolda ali morasse, o mesmo não fez objeção, e cedeu o imóvel. Ali fundava-se o afamado Cabaré da Usina, ou Cabaré da Volta do Quimba, como era conhecido. Violina estava feliz e satisfeita, e nos dias em que o estabelecimento não atendia clientes, geralmente às segundas feiras, ia visitar a amiga e dar boas gargalhadas das histórias contadas por Isolda e suas “Pombinhas”, que ao todo eram 8 mulheres, todas com sonhos, dramas, e história para contar. Naquele ambiente, a função social de conselheira e professora de Violina era exercida na sua plenitude, pois a mesma além de alfabetizar as moças que ali chegavam sem nenhuma escolaridade, ou com baixa leitura, lhes servia de conselheira, a tal ponto que chamavam-lhe de “Mainha Vió”. Violina não sabia, mas 10 anos após acolher Isolda, a mesma lhe fez uma grande surpresa, deu-lhe de presente uma boa quantia em dinheiro, fruto das economias que fez, de cada cliente que a procurava em busca de amor passadiço, para com esse dinheiro, a Portuguesa realizar seu atual sonho, que era voltar à sua terra natal para findar seus dias.
Assim se fez, em 1980, Violina embarca na cidade do Recife, num voo para Portugal, com 80 anos de idade, muita história, recordações, e suas 7 caixas na bagagem, no Hall do Aeroporto, choravam na despedida Isolda, suas 8 “Pombinhas”, duas freiras progressistas missionárias amigas de Violina, que moravam em Cruz do Espirito Santo, e um influente comerciante de Santa Rita que por anos foi amante da mesma. Violina faleceu em 1989 em um chalé, nos arredores de Mêda, deixando apenas suas lembranças na sua passagem de vida entre Portugal-Brasil, Mêda-Santa Rita. Isolda foi embora, de Santa Rita na década de 1990, após o fechamento do Cabaré da Volta do Quimba.
(Esta é uma estória de ficção. Qualquer semelhança com as personagens e os fatos são mera coincidência)
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