domingo, 18 de fevereiro de 2024

O MENINO QUE MANDOU CELEBRAR MISSA DE 7º DIA DA SUA VIZINHA AINDA VIVA.

 



No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era tido por muito peralta. Nascido no Alto das Populares, depois foi levado para morar no centro da cidade, às margens do riacho Tibiri, onde viveu até seus 4 anos de idade, quando finalmente mudou-se com sua família para Tibiri Fábrica.

O menino era muito "astucioso", como dizem os mais velhos, pois, levava seu tempo à fazer traquinagens, tanto pelos quintais das casas da "Rua de Baixo", assim é mais conhecida no bairro a rua José de Alencar, como, por entre os gigantescos Ipês e pés de castanhola da "Rua de Cima", como também é conhecida a Rua General Osório, tendo a linha férrea da CBTU um marco divisório entre as duas ruas, uma defronte a outra.

Era um menino que, apesar de traquino, era muito piedoso, pois gostava de ir praticamente à todas as missas celebradas durante a semana na Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia, mas, sua preferida era do domingo às 5h30 da manhã. Para ele era um evento, acordar antes das 5h todos os domingos, tomar seu banho, colocar sua roupa, calçar seus sapatos, e ficar esperando uma das suas vizinhas passarem para a igreja, e acompanha-las, geralmente eram duas vizinhas, quando não ia com uma, ia com a outra, uma era viúva, e a outra casada.

Um belo dia, cumprindo sua rotina matinal dominical, o menino fica à espreita para ver quem iria à missa naquele dia e, por "sorte" ou desventura da mesma, foi a vizinha casada, que já passou pela calçada chamando pelo nome do menino, que prontamente já estava à postos e a acompanhou. Chegando na Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia, o dia ainda estava amanhecendo, pois era inverno, e o sol só aparece por volta das 5h30/6h da manhã, mas, naquele dia estava típico, frio, o céu da cor de chumbo, as luzes dos postes ainda acesas, davam a impressão de ainda ser noite, e depois que entraram na igreja, uma chuva torrencial começou a cair lá fora, deixando o clima ainda mais agradável e aconchegante para uma missa dominical, igreja, silenciosa, poucas pessoas, escuro lá fora, uma beleza, nem imaginavam o que estava por vir naquela missa.

Na sacristia, um padre belga, chamado Paulo Koellen (de saudosa memória), paramentava-se para iniciar seu sacro ofício, enquanto algumas senhoras espalhadas pela igreja rezavam piedosamente seus terços, compenetradas, com seus véus rendados na cabeça balbuciando as ave-Marias que debulhavam nos seus rosários, outras, cochichando entre si mas não rezando, e sim, dando conta do apanhado da semana que puderam bisbilhotar da vida dos outros. Em meio à esse cenário de fé e futricos, o vento da chuva trazia da porta principal um cheiro de perfume com aroma atalcado que tomava conta da igreja, e sem nem abrir os olhos já sabiam que se tratava de Dona Rizomar (de saudosa memória), comerciante local, muito bem arrumada e maquiada, com sua pele alva corada de ruoge, e o cheiro do seu perfume assinatura chamado Promesa, quando era sentido, já diziam "Dona Rizomar vem por aí". 

Na primeira fileira da nave central da igreja, algumas pessoas já tinham seus lugares marcados, outras, de notoriedade ou poder aquisitivo mais elevado, ainda tinham cadeiras particulares, com suas iniciais gravadas no encosto, cujo assento era móvel, levantava, tornando a cadeira um genuflexório, para suas preces de joelhos na hora da oração eucarística, ou, como algumas gostavam, para rezarem o terço. 

Na porta da Igreja ficava uma das piedosas senhoras que ajudavam na organização da igreja, chamadas popularmente, de forma pejorativa, de "Beatas", esta, tinha como função anotar numa folha, as "intenções da Santa Missa", que poderiam ser de ações de graças, sétimo dia de falecimento, e intenções gerais pelos fiéis defuntos com mais de 7 dias de falecidos, além dos que completavam aniversário de exéquias, e foi aí que aconteceu o inesperado.

O menino, tinha nessa época cerca de 6 a 7 anos de idade, e já sabia ler e escrever, graças à educação doméstica de letramento que sempre teve e o fez ingressar no antigo pré-escolar, aos 5 anos de idade, já alfabetizado. Este teve uma ideia inusitada quando viu a "beata" anotando os nomes dos fiéis defuntos, dados por seus familiares que chegavam à igreja. Aproveitando uma rápida ausência daquela senhora, que se retirara para ter algum assunto com o padre, o menino  foi até sua mesinha, pegou o lápis, e escreveu na folha de intenções de 7º dia de falecimento, os nomes completos da vizinha que o trouxera para aquela missa e do seu esposo, que ainda era vivo. Depois de fazer essa, que foi uma das suas maiores peraltices, o menino sentou ao lado da senhora, sua vizinha e vítima, com a cara mais santa e piedosa que pudesse existir, vendo a hora emanar uma luz da sua aura e ser confundido com um dos querubins que ornavam os pés da imagem de Nossa Senhora das Graças, tamanha era a dissimulação daquela criança.

Chegada a hora de iniciar a missa, com o padre já à postos, uma das ministras da eucaristia precipitou-se ao ambão para proceder com a leitura das intenções, começou com as intenções de ações de graças, um agradecendo à Santa Rita pela saúde de um parente que foi restaurada, outro à São José por um emprego alcançado, e por aí foram, mas quando a leitora disse: intenções de sétimo dia de falecimento, o coração do menino foi a mil por hora, suas carnes tremiam, seu cabelo arrepiava, sua pele suava, com a carga de adrenalina da sua ansiedade para ver a reação da pobre senhora que o acompanhava naquela missa, e quando a leitora disse: FULANA DE TAL DA SILVA e seu esposo FULANO DE TAL DA SILVA, o susto foi tão grande que a senhora, sua vizinha, soltou o terço que trazia nas mãos, sentou-se, pois estava em pé, e balbuciou em voz baixa: "sangue de Cristo tem poder, misericórdia Senhor, eu e "FULANO" estamos vivos, quem pode ter feito isso?", e assim essa senhora ficou, em estado de choque até o final da missa.

Uma hora e meia depois, já por volta das 7h da manhã, lá fora ainda caia muita chuva, a missa terminou, e mal esperou o padre dizer "ide em paz, e o Senhor vos acompanhe", a mulher já saiu apressada para a sacristia, para tirar satisfações com o padre e com a "beata", sobre quem por ventura teria dado o seu nome e do seu esposo para a missa de 7º dia, se ambos estavam vivos. 

Foi um verdadeiro randevú na sacristia, a beata disse que não foi ela quem escreveu, pois aquela não era a letra dela, o padre pedia calma às senhoras, a vizinha exigia que dissessem quem foi que deu o nome dela e do esposo, a beata dizia que não tinha explicação, pois nem ninguém deu esses nomes à ela, e nem aquela caligrafia era sua, estavam tão alteradas que sequer a beata lembrou que tinha saído por alguns instantes e poderia ter sido nesse intervalo que alguém tivesse anotado. 

Do lado de fora da sacristia, o menino esperava com paciência sua vizinha findar a discussão, para retornarem às suas casas, sãos e salvos, debaixo de chuva e, mais uma vez, aquela criança demonstrava uma candura e pureza tão angelical, que jamais, ninguém ousaria insinuar que teria sido ele o autor da traquinagem, e até hoje, a senhora ainda está viva e lúcida, e não sabe quem teria feito tamanha desventura.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A MISTERIOSA MARIA SENHORA, VENDEDORA DE ASSAFRÔA

Em um mocambo rústico, bem afeiçoado, localizado no Alto dos Eucalyptos em Santa Rita, PB, morava uma das figuras mais enigmáticas da cidade, conhecida como: “Maria Senhora”.





Foto: Reprodução da Internet


Maria Benvenuta da Purificação, era filha única de um casal de escravizados da costa do Benin, cujos nomes de colonizados eram Joaquim dos Anjos, e Santina Maria da Conceição, de propriedade do Engenho Tibiri de Cima, libertos em 1888  quando da promulgação da Lei Áurea, e que trabalharam na construção dos alicerces e fundações da Companhia de Tecidos Parahybana, a Fábrica Tibiri, inaugurada em 1890.

Joaquim e Santina conseguiram com o consentimento dos proprietários da Fábrica Tibiri, construir um mocambo na parte alta do terreno de propriedade da empresa, de onde se tinha a visão privilegiada de parte do Vale do Rio Parahyba do Norte, Açude Tibiri e morro que ladeava o mesmo, como também, o centro da cidade. Ali, de forma artesanal, fabricaram os próprios tijolos de massa crua de barro com capim, secados ao sol, e telhas de coxa, ambas técnicas herdadas do período da escravidão, onde as telhas eram moldadas nas próprias coxas pelos escravos. O piso do casebre era de barro pisado, e a parte interna muito simples, contendo apenas dois cômodos , uma mesa de madeira com 4 tamboretes, um baú onde guardavam suas peças de roupa, uma cama feita de paus amarrados, e sobre a cama um colchão de capim; na parede, apenas um lampião à querosene; na cozinha um fogão de lenha e carvão feito de barro, um pote, um pilão, uma forma e uma quartinha; pendurado sobre o fogão um fumeiro para secar tripas, peixes e tiras de carne. Na parte externa da casa havia um alpendre na frente e outro atrás, e o terreno era muito bem planeado, limpo, todo cercado por pés de crote e aveloz, onde as galinhas podiam ciscar, também patos e guinés passeavam tranquilos. Após a cerca, uma cacimba, servia tanto para o consumo da casa quanto para irrigar uma pequena horta, de onde cultivavam verduras e legumes para o seu consumo, e uma plantação de macaxeira, também para consumo próprio. Todo esse cenário era rodeado de incontáveis  palmeiras de Macaíba, Jaqueiras, Mangueiras, Araçás, Cajueiros e Mangabeiras, um imenso pomar que garantia frutas para o ano inteiro, de onde vinham pessoas de todos os cantos colher.

Em 1910 Joaquim e Santina faleceram, com diferença de 30 dias um do outro, primeiro faleceu o marido, com 80 anos de idade, em seguida a esposa, com 75, deixando sua filha única, Benvenuta, que desde muito jovem já era chamada de Maria Senhora, devido seu jeito muito sério, porém sereno, modo de se vestir e comportamento, que a faziam parecer muito mais velha do que realmente era, pois, quando da morte dos seus pais, a mesma tinha apenas 35 anos de idade.

Maria Senhora viveu sempre do seu  trabalho de subsistência, seus pais deixaram o suficiente para que não precisasse se submeter como criada na casa de ninguém. Onde morava tinha criações e plantações necessárias ao seu consumo e, além disso, aprendera com sua mãe, fazer colorífico de Assafrôa, uma perfumada e pequena flor branca de talo avermelhado que, após separar as pétalas, os talos eram colocados para secar em uma bacia no sol, depois de secos, iam ao pilão e então reduzidos a pó para ser usado como colorífico no preparo de alimentos, conhecido como “colorau de Assafrôa”. Além de produzir essa especiaria, usava os talos das folhas de Macaíba para fazer vassouras, e toda matéria prima conseguia de graça, devido a enorme quantidade da palmeiras naquela localidade. Todo o material produzido por Maria Senhora, era vendido aos sábados, na porta da Fábrica Tibiri, quando os funcionários  que também eram moradores da vila, saíam com o salário semanal no bolso, já no domingo, fazia as mesmas vendas na feira livre,  em frente à Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia.

Foto: Alemão Bruno Bougard. Retrata a visão que se tinha dos fundos da casa de Maria Senhora

Maria Senhora era enigmática, pois aparentava ter dupla personalidade. A que saía às ruas vendendo seus produtos era de uma pessoa, vaidosa, sempre com vestidos  muito bem costurados à mão pela mesma, colares diversos no pescoço, alguns escondidos por dentro da roupa, herdados da sua mãe, trazidos do  país de origem dos seus pais, cabelo bem assentado e brilhante, tratado com óleo de coco, e sempre um misterioso sorriso de canto de boca, que nunca revelava totalmente seu estado de espírito. 

Apesar de pessoas com os seus arquétipos, serem um prato cheio para crianças e desocupados colocarem apelidos e virarem motivo de chacotas, pilhérias e outros tipos de violência, ninguém nunca ousou fazer uma anedota, ou soltar uma pilhéria que fosse àquela imponente senhora que, onde chegava, causava silêncio e total atenção dos presentes, e quando passava onde tivesse uma roda de meninos brincando, os mesmos paravam a brincadeira para que ela passasse.

Alguns mais velhos comentavam sobre hábitos pouco ortodoxos de Dona Maria Senhora em sua casa, que ouviram dizer de não sei quem, que foi falado por não sei quem lá, de que em casa ela era estranha, mas, ninguém ousava subir o Alto dos Eucalyptos para importuna-la na sua própria casa, pois, os pés de crote que a rodeavam eram altos, e ficavam distante das paredes da casa, e os andarilhos que por ali passavam, só viam mesmo o portão da frente e dois cachorros vira-latas de grande porte que permaneciam o dia todo de prontidão para atacar quem se aproximasse. A casa era quase que um santuário intocado e inviolável, e a única residência que Maria frequentava e tinha o mínimo de intimidade de conversar, era no casarão dos proprietários da Fábrica Tibiry, ou para lhes levar semanalmente de cortesia parte da sua produção de especiarias, ou ainda, quando alguém da casa adoecia, para que a mesma fizesse beberagens curativas com plantas medicinais, e quando algum dos filhos menores acometia de mau olhado, Maria Senhora os rezava e curava.

Existe uma máxima popular que diz: “menino é bicho danado”, pois bem, certa feita, alguns meninos da vila operária se juntaram, se resolveram confabular a cerca de uma possível inspeção de espionagem na casa de Dona Maria Senhora, e verem com seus próprios olhos o que de fato acontecia ali de tão misterioso, que as pessoas faziam mil suposições de como seria a outra personalidade da mulher dentro da sua casa. Uns diziam que ela se encantava, ficava invisível, outros diziam que ela conversava com os espíritos, outros ainda que seus pais falecidos se materializavam, e alguns, que a mesma praticava magia, herdada da origem dos seus antepassados,  mas, eram apenas suposições, ninguém de fato afirmava o mistério que era a vida daquela senhora na inviolabilidade do seu lar, já que ninguém, nunca, nem quando seus pais eram vivos, fora convidado uma única vez sequer à entrar na sua propriedade.

Um belo dia, num grupo de alguns meninos que planejavam bisbilhotar a intimidade de Dona Senhora, apenas 3 tiveram coragem e armaram um plano, que consistia em: já que existiam dois imponentes cães guardando o tempo todo a casa misteriosa, planejaram jogar alguma isca para que se afastassem do portão, e iam jogando mais iscas até distancia-los o suficiente, até onde teria alimento para que os cães se distraíssem comendo, e desse tempo de espiarem o mínimo que fosse. E assim o fizeram, à passos sutis e pausados, foram se aproximando agachados nos matos até próximo ao portão da casa, e ali jogaram um pequeno peixe no terreiro bem limpo e varrido, embaixo de um imenso pé de manga. Os dois cachorros imediatamente morderam a isca, e assim  jogaram outro mais distante, e foram se distanciando e os cães se afastando, até que, embaixo de uma jaqueira, já bem distante da casa, estava preparado um banquete de tripas, couros, e cabeças de galinha que os meninos recolheram nos restos da feira. Um ficou atocalhando os cães, para, caso voltassem anunciaria com assobios, e dois foram para a cerca da casa, em busca de um melhor lugar para investigar o que acontecia na casa daquela senhora.

Finalmente, após alguns minutos acocorados por entre as folhas da cerca, só viam a fumaça do fogão a lenha saindo pela brecha das telhas, as portas e janelas da casa todas arreganhadas, no pátio duas bacias de alumínio espelhadas de tão areadas e cheias de Assafrôa. Secando, embaixo do alpendre do quintal alguns feixes de talo das folhas da Macaíba, e nenhum sinal de Dona Maria Senhora. Aquele silêncio todo começou desencadear um nervosismo e o pânico já tomava conta dos dois, pois temiam ser avistados, ou atacados pelos cachorros, caso voltassem, mas, para espanto dos meninos, o que eles tanto queriam ver aconteceu, eis que na porta da cozinha para o alpendre do quintal, surge imponente, a figura de uma mulher preta, com os seios totalmente à mostra, cabelos crespos soltos e erguidos, uma saia longa e rodada de chita, com o cós enrolado feito uma roldilha e as laterais levantadas, deixando as pernas à mostra até os joelhos, as duas mãos nos quartos e um grosso cachimbo de anjico na boca, soltando generosas fumaçadas. Com um olhar ao ocaso, o semblante daquela mulher de aparência tribal, parecia perdido, ou vislumbrando algum porvir, haja visto que na sua boca, se desenhava um largo sorriso, mostrando os dentes, que ninguém jamais tinha visto, brancos e firmes como pérolas. Os meninos quiseram correr, pois não sabiam como lidar com aquela imagem jamais imaginada ou vista onde quer que fosse, mas, simplesmente perderam as forças nas pernas, e não conseguiam sequer segurar o queixo na boca. Continuando a triunfante aparição, a mulher deu alguns passos para a frente, colocando-se no sol, saindo da penumbra do alpendre, foi quando a surpresa dos meninos os deixou ainda mais estupefatos, perceberam que, aquela personagem inenarrável era de fato Maria Senhora. Sua pele negra besuntada de óleo de coco brilhava no sol, seu semblante era diferente, de satisfação, sorridente, altiva, parecia uma rainha seminua e despenteada, algo totalmente estranho aos costumes da época. 

Continuando sua aparição, Dona Maria sentou-se em um rolo de Macaíba que havia encostado perto da porta, colocou a saia entre as pernas e, segurando aquele pesado cachimbo entre os dentes dando generosas fumaçadas, começou juntar os feixes de talos e amarra-los, formando as vassouras que levava à feira para vender, de repente, trincando o canudo do cachimbo entre os dentes, começou cantarolar uma cantiga que dizia assim:

 “Otê, Padre Nosso com Ave Maria
Securo camera qui tanganãzambe, aiô
Aiô, Taganãzambe, aiô
Calunga qui tom´ossemá
Calunga qui tom anzambi, aiô”

A cantiga era cantada como um mantra, e cada palavra pronunciada, revelava um sorriso aberto e o brilho nos olhos daquela senhora, que amarrava cuidadosamente cada feixe, sob aquela toada provavelmente aprendida com seus pais.

De fato a figura de Maria Senhora não era algo que deveria ser visto por ninguém, pois, para os padrões da época era um escândalo, uma mulher negra, seminua, livre, totalmente livre, de paradigmas e regras de convivência, de pensamentos e comportamentos colonizados, a sociedade não estava preparada para tamanha liberdade e, aquele estilo de vida escondido era o único espaço onde se via um sorriso pleno daquela rainha nagô, que demonstrava como seus pais viviam livres e felizes antes da diáspora, na terra em que eram autóctones e verdadeiramente livres. Foi assim nessa liberdade que Dona Maria Senhora foi criada, porém, tinha que se privar de vez em quando para poder obter o lucro do seu trabalho.

E os meninos curiosos? Ouviram o sibilar do assobio do amigo que ficou pastorando os cachorros e não contaram conversa, correram que os pés batiam nas nádegas, e ao chegarem na beira do açude, esperaram pelo outro que, quando chegou, os mesmos mal conseguiam contar direito o que viram, de tão nervosos. Um falando na fala do outro, atropelando as palavras, e o terceiro menino que não viu a cena os olhou com um olhar  de reprovação e disse: “o que vocês mentem em um dia, o galo não canta em um ano! Vocês acham que alguém vai acreditar nessa mentira cavernosa que vocês estão inventando? Vamos embora pra casa que nossas mães já devem estar nos procurando”. E assim foram, uns dizendo que estavam falando a verdade, o outro dizendo que era mentira, mas nunca tiveram coragem de levar a história adiante, para não levarem uma surra dos seus pais pela suposta mentira.

Maria Senhora depois de idosa, já sem forças para cuidar de roçado, foi convidada à morar nos aposentos dos empregados, da casa grande dos donos da Fábrica Tibiri, e trabalhar apenas como cozinheira da família, a mesma aceitou, e ali terminou seus dias quando morreu ainda lúcida, andando, cozinhando etc, onde “foi dormir e acordou morta”, como dizem popularmente as pessoas ao retratar uma morte súbita.



Esta é uma estória, baseada em histórias. Qualquer semelhança com a realidade é apenas alegoria ou mera coincidência.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

CAMBALACHO, a saga do homem que foi ao próprio enterro.


Um dos nomes que, sem dúvidas, é o mais incógnito entre os mitos folclóricos de Santa Rita, é o de “Cambalacho”, cujo codinome já remete à atos ilícitos, fraudes, trapaças, vantagem às custas de outrem, e toda a sorte de infortúnios que o mesmo possa carregar. E assim o era de fato, o cidadão que morava no Bairro Popular, cidade de Santa Rita, PB, e durante o final da década de 1960, até meados do ano de 1985 percorria os 4 cantos da cidade, como também cidades vizinhas, tirando vantagem de absolutamente tudo e enganando a todos que encontrava pela frente, independente de classe social, profissão, gênero ou credo religioso. 

Seu nome verdadeiro, quem sabia? Sempre que precisava apresentar algum documento de identificação, em alguma situação que fosse necessário, nomes e sobrenomes diferentes apareciam, uma hora era Crispiniano José da Silva, noutra Antonino José da Conceição, ou ainda Reverencio Petronilo de Lima, e o mais curioso, que chegava ser um deboche: Aldrabão Falaz Pereira da Costa, logo, não se sabia de fato quais desses nomes seria o seu verdadeiros, ou nenhum deles. Outra coisa que não se sabia do ilustre cidadão era sua origem, pois assim como seus nomes e sobrenomes diversos, cada documento também trazia um local de nascimento diferente, a saber: Passa e Fica – RN, São José da Lagoa Tapada – PB, Santa Maria do Cambucá – PE, Monsenhor Tabosa – CE. Só se sabe que, chegou à Santa Rita vindo de Rio Tinto, no final da década de 1960, junto com trabalhadores da antiga fábrica de tecido dos Lundgren que havia falido naquele município, e os mesmos migraram para a cidade dos canaviais, para trabalharem nas mesmas atividades, na Companhia de Tecidos Parahybana – CTP, a antiga Fábrica Tibiry. 

Destacado na foto, Cambalacho, carregando sua mala de madeira, juntamente com ex-funcionários da Companhia de Tecidos Rio Tinto na vinda para Santa Rita.

Como passava a maior parte do dia fora de casa, tendo que adquirir na conversa e na tramoia, do cafezinho ao prato de comida, sua casa, simples, ficava situada na localidade do Sítio do Marinheiro, numa pequena ribanceira, um imóvel de sala e cozinha, construído em alvenaria, mas, com quase nada dentro, apenas uma rede armada, uma cadeira, um tamborete com uma mala de madeira em cima, onde guardava as poucas peças de roupa, quase todas iguais, ou pelo menos em tons de cores parecidos, já que Cambalacho sempre usava a mesma aparência: calça social marrom, camisa de mangas curtas de botões azul clara, e chapéu de massa marrom na cabeça além do seu inseparável cigarro de fumo de rolo, chamado “Boró”. Além da rede, cadeira, tamborete e mala, a casa ainda tinha um fogão à carvão feito de barro, uma lata com pó de café ao lado, que quase nunca foi usado, uma chaleira, um quadro de Santa Bárbara na parede com fitas vermelhas amarradas e uma coroa de flores de plástico ao redor, que fora retirada de cima um caixão em pleno enterro após Cambalacho convencer a família do defunto que o mesmo lhe havia prometido em vida a coroa de flores como lembrança, e embaixo do quadro um atajé com um copo de água e um pequeno castiçal de porcelana, esse cenário compunha o que era, mais um abrigo do que uma casa, cuja situação sanitária do bairro na época era complicada, e o banheiro, chamado de latrina, ficava do lado de fora, feito apenas por um cercado de palhas de coqueiro com um buraco cavado no chão, coberto por um tapume de tábuas. 

A rotina de Cambalacho era a mesma de segunda à sábado, ainda de madrugada estava no mercado central de Santa Rita, ou das cidades vizinhas como Bayeux, Cruz do Espírito Santo, Pedras de Fogo, Mamanguape, para onde ia de carona, que conseguia fácil, e geralmente ainda conquistava na conversa o dinheiro para o cafezinho com a pessoa que lhe fornecia o favor. Chegando nesses mercados ou feiras livres, Cambalacho procurava as barracas de jogo, ou de cartas, ou de Bozó, onde, no blefe, iniciava o jogo sem colocar antes o dinheiro da aposta sobre a mesa, e como sempre ganhava alguma coisa, com o dinheiro que ganhava pagava as rodadas que tinha perdido, e ainda lhe sobrava dinheiro para o restante do dia. 

Depois de ganhar dinheiro no jogo, seguia para as barracas onde vendiam deliciosas refeições caseiras, para comer o seu sagrado prato de inhame com carne de peito, costela ou frango guizado com muita “graxa” por cima, como chamam o molho das carnes nessa região, acendia seu boró, e saia à cantarolar em busca de uma nova vítima para suas investidas. As abordagens às pessoas eram diversas, e até para conseguir um gole de “pau dentro” (aguardente de cana curtida com raízes e cascas de árvores aromáticas) ele tinha uma conversa pronta, chegava para o dono da barraca e dizia que aquela beberagem não era legítima porque não tinha determinada casca dentro, que a verdadeira “pau dentro” só se adquiria a partir da casca aromática do Cedro e do Babatenon, independente das outras que ali tivessem, a após minutos de discussão, lançava sua célebre frase “eu só acredito vendo”, o que fazia o dono da barraca, já aborrecido com a dúvida posta sobre seu produto, encher um copo americano pela boca e ofertar como cortesia, “pois tome, você só não acredita vendo? Então experimente e diga se aí não tem Babatenon nem Cedro?!”. Cambalacho entornava aquele copo repleto da beberagem, já com um sorriso no canto da boca, e bebia lentamente, deliciando-se como à um néctar dos deuses, apreciando o sabor diferenciado de cada ingrediente ali curtido, terminando sua conquista como um troféu. 

O único dia que Cambalacho se resguardava (em tese) era o domingo, pois nesse dia ele ia logo cedo para a primeira missa na Igreja Matriz, ouvir os sermões do Pe. Paulo Koelen, e passar o restante do dia se balançando na sua rede, fumando seu boró, comendo de caíco com farinha, regado a café feito no seu fogão de barro. À exceção do domingo no entanto, o seu ímpeto que fazia jus ao seu codinome era mais forte do que ele, logo, como não “perdia uma viagem”, cambalacho aproveitava a hora do ofertório e entrava na fila como qualquer outro fiel, para fazer sua doação à “Casa do Senhor”, no entanto, ao chegar junto da senhora que segurava o bisaco de dinheiro, perguntava-lhe no no ouvido: “tem troco pra 50?”, ao passo que a mesma respondia que deveria ter, haja visto a quantidade de dinheiro trocado que ali continha. Num piscar de olhos, ele tirava do bolso, um pedaço de papel de enrolar pão, recortado no tamanho de uma cédula de 50 cruzeiros, e mais rápido que a luz depositava no fundo do bisaco, de onde retirava quatro cédulas de 10, mostrando à fiel que consentia com a cabeça, confirmando o troco do que lhes fora enganado pelo olhar desatento. Na volta para casa, sua parada era obrigatória em algumas bodegas que encontrava no caminho de casa, para tomar sua “góipada” de cana, comer torresmo, e jogar conversa fora, contando feitos fantasiosos de suas andanças pelo mundo, entre essas bodegas, a de Seu Valdemar, na Rua do Cantinho, de onde também comprava “um mercado” de gás (querosene) para seu candeeiro, em seguida na de Seu Vavá Guedes e Seu Bastos respectivamente na Rua Severo Rodrigues, onde dizia ser seu remédio para recuperar as forças depois de ter subido a ladeira do alto. Seu Bastos não vendia cana, mas Cambalacho tinha que parar lá para contar suas lorotas, e por fim, antes de chegar em casa, sua última parada era na de Seu Antônio Galego, na Rua São José, onde já embriagado, queria tomar uma meiota, mas Antônio, preocupado para que o cliente não caísse nos buracos das valas que tinham no percurso da sua casa, só lhes permitia uma única lapada de cana, antídoto necessário para “baixar o facho” de Cambalacho naquele dia, e mantê-lo em casa. 

Um dia, Cambalacho acordou insatisfeito, com toda essa vida que levara, desde sempre, em tirar vantagens das pessoas com pequenos golpes cotidianos, que sustentavam sua vida medíocre e limitada então pensou grande e de forma determinada: “Vou entrar para a agiotagem”, e logo começou na solidão da sua rede, traçar planos e metas para concretizar seu novo objetivo, levantando-se posteriormente, disposto, e saiu pela rua, para sua primeira investida no seu novo empreendimento. E assim começou frequentar comércios e locais que não frequentava antes, se identificando como credor, prometia emprestar dinheiro com juros mais baixos do que os cobrados por outras pessoas em igual atividade, contudo, para adquirir o empréstimo, o beneficiado precisaria dar um sinal de 20% da quantia emprestada, como garantia, e com esses sinais ele juntava e ia montando o valor total de cada empréstimo. 

A notícia se espalhou rápido entre os agiotas, que planejaram atentar contra Cambalacho, mas, a destreza do mesmo era ímpar, e seus desafetos não contavam que, todo plano do trapacento tinha todo um esquema arquitetado de início, meio e fim, e desconheciam justamente esse fim. Um belo dia, Cambalacho simplesmente desapareceu, e as pessoas dos locais onde o mesmo, rotineiramente, fazia seu percurso cotidiano, começaram perguntar uns aos outros se o tinham visto, e ninguém sabia responder. O burburinho começou correr à boca miúda, chegando rapidamente, em menos de 24 horas que a conhecida figura não tinha dado o ar da graça naquele dia, ao ponto de pessoas que sabiam do seu endereço, irem até sua pequena casa e literalmente botarem a porta a dentro, porém, nada encontraram além daquele cenário vazio, da rede armada, mala sobre a cadeira, fogareiro de barro com o fogo apagado, e começou então um disse-me-disse pelas ruas de Santa Rita, de que “os agiotas mataram Cambalacho”, e assim a notícia foi se espalhando, não sabiam eles que o folclórico golpista, acostumado com a simplicidade, estava escondido em uma casa abandonada pertencente à Usina São João, no meio do nada, dentro do canavial, nas proximidades do açude de Reis, escondido, deixando o tempo passar e, quem sabe, sua figura caísse no esquecimento. 

Certa feita, Cambalacho resolveu mudar sua aparência para poder circular pela cidade, retirou totalmente sua barba cheia, vestiu-se com trajes elegantes, que o mesmo furtou outro dia do varal da casa grande da Usina São João, certamente aquelas roupas pertenciam ao proprietário da indústria, botou sua roupa velha num saco e se dirigiu a pé pelo canavial. Chegando perto da localidade conhecida como “Volta do Quimba”, que fica na divisa entre os territórios da Usina com o centro da cidade, Cambalacho se deparou com um corpo sem vida caído à beira de um riacho, certamente de um agricultor, de meia idade, mesma altura que ele, e barbado, aparentemente acometido de mal súbito. 

Após rezar um Padre Nosso por aquela alma vacante, e caminhar alguns metros, o impostor teve uma idéia que seria o desfecho da sua história na cidade de Santa Rita, deu meia volta, e vestiu aquele corpo com as roupas que trazia no seu bisaco, e seguiu sua caminhada rumo ao centro da cidade. Ao passar de fronte ao cemitério, Cambalacho, vestido elegantemente, se dirigiu ao vigia do campo santo e lhes disse: “ali no riacho da Volta do Quimba tem um homem caído, não sei se está vivo ou morto pois tenho pressa e não tive tempo de constatar”, o senhor agradeceu, e fechou o portão do cemitério para ir ver o que aquele desconhecido lhe falou. Chegando no mercado, Cambalacho foi testar sua aparência, caminhando por entre as barracas das pessoas que já o conheciam, e constatou que o seu novo truque funcionou, pois absolutamente ninguém o reconheceu, no entanto, ao parar em uma das barracas para tomar um café pequeno, só ouvia o disse me disse do seu desaparecimento, quando de repente chegou um menino na porta do mercado e gritou “gente, gente, vocês não sabem o que aconteceu, acabaram de encontrar Cambalacho morto lá na Volta do Quimba”. 

A notícia trazida pelo arauto mirim gerou grande alvoroço, ao ponto de diversos comerciantes deixarem seus pontos e saírem correndo para constatar o fato. Cambalacho esboçou um sorriso de canto de boca, satisfeito, terminou de degustar seu café e seguiu para a Praça Getúlio Vargas para continuar avaliando a repercussão da sua suposta morte. Chegando à Praça, que é a central da cidade, sentou-se em um coreto defronte à Igreja Matriz, e observou que ali também as pessoas só comentavam sobre o achado, foi quando um motorista de taxi chegou eufórico com a notícia “gente, gente, eu vi com meus próprios olhos, o defunto é Cambalacho mesmo, e foi morte morrida. Curioso com a afirmação do taxista, o morto-vivo se dirigiu ao mesmo e perguntou o que o faria tirar essa conclusão, de “morte-morrida”? O taxista respondeu que o corpo estava emborcado, com o rosto em cima de uma pedra de lavadeira, e a pequena barranca tinha marcas de escorregões, onde o barro estava na sola da alpercata da vítima, o que levava crer que ele teria escorregado e caído de cara na pedra, tendo traumatismo, devido o rosto estar totalmente inchado. Cambalacho agradeceu pelas informações e pagou uma corrida com o mesmo taxista para deixa-lo em João Pessoa, nas proximidades da fábrica de Guaraná Sanhauá, de onde tomou destino ignorado, provavelmente para alguma pousada em busca de pernoite. 

Na manhã seguinte, Cambalacho retornou à Santa Rita, descendo na Praça Getúlio Vargas para colher informações sobre o desfecho do ocorrido na tarde anterior, e encontrou uma grande multidão que se aglomeravam na porta da Igreja da Conceição, que fica na mesma praça que a Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia. Pessoas de várias idades, das mais novas às mais velhas, crianças, idosos, etc, se espremiam e buscavam ver algo que acontecia dentro da Igreja. Curioso, o enganador entrou numa loja de nome “Sapataria Gadelha” e perguntou ao comerciante de nome Pedro, o que estava acontecendo. Seu Pedro Gadelha, que era proprietário da loja respondeu: “é o caixão com o corpo de Cambalacho que acabou de chegar para ser velado, mas vão ter que enterrar logo, porque está muito inchado”. 

Após agradecer pela informação, Cambalacho, elegantemente vestido com os mesmos trajes do dia anterior, atravessou a rua, e conseguiu entrar no seu próprio velório. No meio da Igreja estava o caixão, simples, de plástico roxo, doado pela prefeitura, algumas poucas flores dentro, colhidas e levadas pelas próprias pessoas que foram ver o corpo, e pendurada no crucifixo, a mesma coroa de flores de plástico que adornavam o quadro de Santa Bárbara na casa do suposto defunto. Encantado com todo aquele cenário, pois coroava todo o seu plano, fechava sua história em Santa Rita, e abria um livro em branco para que Cambalacho escrevesse uma nova história em novo lugar, ele se aproxima do caixão e diz em alta voz: “ele foi um homem bom”. 

O brado do homem desconhecido e elegante, fez com que todos(as) absolutamente silenciassem e prestassem atenção àquela figura enigmática e desconhecida que aparecera do nada. Cambalacho orgulhoso, encheu o peito de ar e fez um breve discurso, dizendo que aquele que ali estava sendo velado, nunca fizera mal à ninguém, que o conhecia de muitos anos, a quem lhe devia inúmeros favores, mas que o tempo os fizera se perderem, e nos desencontros da vida, se reencontravam naquele momento triste. Continuando seu discurso, investiu seu derradeiro golpe na boa vontade e opinião das pessoas, pegou a coroa de flores de plástico que adornava o crucifixo, o quadro de Santa Bárbara que estava exposto nos pés do mesmo e disse: “me permitam ficar com esta última lembrança do meu velho amigo, pois o mesmo, em vida, disse que não tinha ouro nem prata, mas tudo que tinha de valor simbólico era aquilo, e que lhe confiava a tutela após a sua partida”. Aplausos fervorosos eclodiram de todos os lados, ao passo que, Cambalacho, já satisfeito por não ter sido reconhecido por ninguém, e com a certeza, igual todos, de que aquele corpo ali era realmente seu, disse com voz firme: “podem fechar o caixão e fazer o enterro”, que foi obedecido pelos presentes. 

Nos últimos minutos da permanência da sua imagem, totalmente modificada, de homem elegante e de aparência abastada, quando já entrava em um taxi para tomar destino ignorado, algumas pessoas o pararam e perguntaram: Senhor, qual o seu nome? Ao passo que, sem nem pestanejar, respondeu: “Robeto Ribeiro Coutinho Maroja Veloso Borges” e saibam vocês, que qualquer um que aparecer com esse mesmo nome, não passará de um Cambalacho. Entrou no taxi, e até hoje não se ouviu mais falar da sua pessoa nem do seu destino. 

 Esta é uma estória ficcional. Qualquer semelhança não passa de mera coincidência.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cleonice Laurentino de Moura ( Dona Nicinha Rezadeira.)

Na Rua da Palmeira em Tibiri Fábrica, atualmente General Osório, próximo às escadarias de fronte a Escola Normal, e ao lado do casarão dos Encarregados da Fábrica Tibiry, morava Cleonice, ou "Dona Nicinha Rezadeira", como era conhecida nos 4 cantos da cidade, e até em outros municípios, já que sua clientela era diversa. Cleonice era a mais velha de 4 irmãs, a saber, Cleonice, Clarice, Egizonete, e a caçula Francisca de Assis, das quais, era intrigada de todas, pois, a personalidade forte das "Irmãs Moura", como eram chamadas nos cochichos dos moradores, as impedia de qualquer relação amigável entre si, pois, por mínima que fosse a discussão, cada uma sempre queria ser dona da razão, motivo pelo qual as fez se intrigarem entre si. 









Da esquerda para a direita: Clarice, Cleonice (de camisa listrada), Egizonete e Francisca de Assis (a de menor estatura).

Era curiosa a forma das irmãs Moura se relacionarem, pois, apesar 
de intrigadas, sempre iam juntas aos espaços sociais como igreja, mercado, festas, etc, no entanto, não davam um pio no trajeto, e quando encontravam algum(a) conhecido(a) ou alguém puxava conversa interagiam normalmente com a pessoa, mas entre elas nunca . Sem embargo, quando não tinha jeito e precisavam umas das outras, o faziam de forma genérica, como por exemplo, estando na mesa para a refeição, Nicinha dizia: "ai meu Deus, que vontade de passar uma manteiga nesse pão, mas não sei onde encontrar", a manteiga estava na frente dela, do outro lado da mesa, sendo usada por Francisca, que por sua vez dizia em voz alta: "vou colocar esta manteiga no centro da mesa, caso apareça alguém precisando usar irá encontrar aqui", e Nicinha então pegava a manteigueira, e nesse sentido elas iam se comunicando, se Egizonete fosse tomar banho e por ventura esquecesse a toalha, dizia alto: "Eita, meu Jesus, acho que roubaram a toalha do varal, pois não encontrei em canto nenhum e terei de sair do banheiro molhada", logo, Clarice que havia usado antes, pegava a toalha e pendurava na maçaneta do banheiro, respondendo em voz alta como se pensasse falando: "acabei de usar a toalha, vou deixa-la aqui na maçaneta da porta do banheiro para que seque mais rápido e ninguém pense que o ladrão a levou do varal". E assim se relacionavam as irmãs.
Nicinha era rezadeira afamada, onde, praticava o ofício sem que ninguém a houvesse ensinado, aprendera por intuição desde criança, quando na escola chegava algum colega adoentado, a mesma brincando pegava algum ramo verde, e rezava-lhe, onde, para espanto das pessoas, horas depois a criança estava disposta novamente, saltitante e serelepe. Por vezes, dizia que sua avó falecida, que também era rezadeira, lhe aparecia em sonhos e lhes ensinava as rezas que a mesma deveria desempenhar, e que eram para diversos fins: espinhela caída, olhado, cobreiro, dor de dente, cólicas menstruais, trabalho de parto difícil, torcicolo, etc. Também rezava pessoas que precisavam de emprego, amor, dinheiro, clientes para o comércio, além de rezar casas tidas como mal-assombradas.
Uma fama não muito boa que tinha Dona Nicinha era a de fofoqueira. Diziam a mesma dar conta da vida de toda a paróquia, e até mesmo do Padre, das Freiras do Hospital e até das outras Freiras que tinham um colégio no Alto das Populares, ninguém escapava à língua ferina de Nicinha rezadeira.
Quando acontecia algum crime na cidade, coisa difícil naquela época, os casos mais comuns eram de agressão física, roubo de galinha, traições matrimoniais etc, o Delegado antes de qualquer coisa, ia ter com a rezadeira, para averiguar se ela já não estivera sabendo de alguma coisa, e quase sempre sabia de fato. 

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A obsessão por informações a cerca da vida alheia era tão forte, que muitas vezes, quando era alguém conhecido(a) que procurava Nicinha para ser rezado(a), a mesma atrapalhava a reza inúmeras vezes com assuntos paralelos, tipo: "Ave Maria cheia de graça...mulher tu soubeste do que aconteceu com fulano... o Senhor é convosco.... eu quando soube fiquei estarrecida, nunca imaginei que... bendita sois vós entre as mulheres...que fulano fosse capaz de uma coisa daquelas....", ou então, durante a reza procurava saber da vida de quem estava sendo rezado, para depois assuntar com terceiros: "Estou benzendo este torcicolo no pescoço de fulana.... mulher fala a verdade, torcesse esse pescoço como?... pelo bem de Nossa Senhora, virgem imaculada, eu rezo a carne quebrada... fala a verdade mulher, eu sei que tu desmentisse esse pescoço na hora da safadeza com teu marido... em nome do Padre, do Filho e do Santo Espírito, amém...", assim ia levando a vida Nicinha, colhendo aqui, plantando ali, ouvindo acolá, levando para lá.
Mas um dia Nicinha não se deu muito bem, chegou uma das mulheres mais ranzinzas da Vila Operária Tibiri, Dona Auxiliadora, moradora da chamada "Rua 20", que era a última rua do bairro, com uma forte dor de cabeça, para que Nicinha rezasse.
Dona Çili, como era conhecida, gemia dia e noite com essa dor de cabeça que nunca passava, mas, acreditava no poder da fé e na força da reza de Cleonice, e foi ao seu encontro.
A rezadeira pediu que Auxiliadora sentasse de costas para rua, pegou um ramo de Liamba, outro de Pinhão Roxo e um de Tipi, e começou rezar a cabeça de Çili, contudo, sua língua começou a coçar, e ela não aguentando conter sua natureza de coscuvilheira, pôs-se a rezar: 
"Jesus Cristo e São Pedro Pelo Mundo andou
E São Pedro se assentou
Nossa Senhora lhe perguntou:
– O que tens tu, Pedro?
– Senhora, tenho uma dor de cabeça tão rija e tão forte
Que me parece que estou de morte.
– Pedro!
– Diz.
– Deus nasceu, Deus morreu e Deus ao céu subiu,
Bendita seja a mãe que este Filho pariu.
Eu te benzo, Maria,
Das dores de cabeça,
Como Nossa Senhora também benzia.
Em louvor de Deus e da Virgem Maria."


Ao terminar a benzedura, Nicinha disse à Çili: "mulher, eu soube de uma coisa que fiquei estarrecida, tu sabes quem é aqui no bairro, a mulher que vivia se assanhando para Dr. Virgínio Veloso Borges (na época dono da Fábrica Tibiri), e foi pega pela mulher dele na hora que a sirigaita lhe entregava um bilhete? Minha filha olhe, disse que foi uma pisa tão grande que a rameira levou da esposa dele, que até hoje ela manda de uma perna, tu sabes quem foi essa?"
Auxiliadora deu um pulo da cadeira, ficou vermelha, ofegante, já não reconhecia mais ninguém, só via uma névoa na sua frente, as carnes lhe tremiam mais do que vara verde, e com a voz embargada disse: "Olhe Nicinha, fofoqueira de ponta de rua, antes de sair dizendo o que não sabe, procure se certificar com quem sabe. Essa pessoa que você está falando sou eu, mas, jamais eu teria caso com Dr. Virgínio, nem com nenhum outro homem casado, porque eu sempre fui muito bem casada, e nada disso aconteceu, muito menos levei surra de ninguém. Aconteceu de eu entregar um bilhete ao mesmo, com o nome do meu irmão, pedindo emprego para ele na fábrica, e a esposa do Doutor viu e pediu para ver o papel, mas quando viu de que se tratava sorriu e se retirou, não teve nada disso. Olhe Nice, vou lhe rogar uma praga e minhas pragas pegam viu!? Por conta das suas fofocas, sua língua vai crescer tanto que quando você morrer, seu corpo vai no caixão e sua língua em cima de uma carroça dentro de outro ataúde, e vão ter que cavar duas covas, uma para você, outra para sua língua".

Após o incidente, Auxiliadora se retirou, e Nicinha teve que ser acudida pelos vizinhos que ouviram a confusão, e perceberam a rezadeira pálida e sem forças para se manter em pé.
Passaram-se os anos, e Nice foi ficando depressiva, silenciosa, reclusa, falando muito pouco, apenas o necessário. As maldades que a velha rezadeira fazia, como guardar um penico de ágata cheio de urina atrás da porta da frente, para jogar nas costas dos meninos que passavam gritando na calçada, já não fazia mais. A vara de goiabeira que guardava no fumeiro, em cima do fogão de carvão, que servia para bater nos gatos que vinham roubar carne seca, jogou fora, e passou à viver reclusa no seu quarto, de onde só saia para tomar banho ou fazer necessidades fisiológicas, pois até sua comida quem passou à lhe dar foi sua irmã Francisca, que colocava o prato por debaixo da porta.

Um dia, mais precisamente um domingo de manhã, logo após a Missa das 5h da manhã, correu um boato começando na porta da Igreja Matriz, entre as paroquianas que se reuniam todo domingo em baixo da torre para falarem da vida alheia. Esse boato dava conta de que Nicinha rezadeira havia falecido na noite anterior, e rapidamente o disse me disse tomou conta da cidade. Pessoas começaram chegar, curiosas, rondando a frente da casa, outras fingindo estarem tomando uma sombra embaixo das árvores, outras descaradamente paravam em frente à Escola Normal, cruzavam os braços e aguardavam alguma notícia oficial por parte das irmãs Moura, e aos poucos, tanto a Rua da Palmeira, quanto a José de Alencar que é na sua frente, divididas apenas pela linha férrea, iam se enchendo de gente, mas a casa permanecia fechada.
Finalmente, às 17hs, hora em que geralmente a maioria dos enterros acontecem, parou na porta da rezadeira uma carruagem funerária, algo nunca visto na cidade,  puxada por dois grandes cavalos Manga Larga, e condutor vestido elegantemente de terno preto. As pessoas começaram se aproximar do veículo, que teve que ser alugado em Recife, já que nem em Santa Rita, muito menos em João Pessoa dispunham de tal, e o silêncio reinou, ouvia-se apenas o barulho das pisadas da grande multidão se aglomerando sob a poeira que se formara na rua ainda de barro, sem calçamento. 
Finalmente, às 17:20h, Egizonete, vestida de preto, com um véu da mesma cor na cabeça e terço na mão, abre a porta de rolo da sua casa,  e sem dizerem uma palavra sequer, as irmãs saíram sem a presença de Nicinha do seu lado. Ao passo que, por último, saíram da casa o condutor do veículo funerário, junto com seu ajudante, carregando um caixão de tecido roxo, e o depositaram no interior da carruagem. As pessoas se olhavam, algumas com ar de tristeza, outras de surpresa, quando, sem que esperassem, o condutor entrou mais uma vez à casa, e saiu com outro caixão, este menor, medindo cerca de 1,20m, que gerou um espanto coletivo, seguido de uníssono "Óóóóóóóóóóóóóóóóóó", pois, as pessoas sabiam da praga que Çili rogara há mais de 30 anos passados, mas que pensavam ser uma lenda urbana. Cabisbaixas, as irmãs entraram na carruagem funerária, sendo Francisca a última, que, antes de subir, virou-se para a multidão e disse em voz alta: "Por gentileza, não nos sigam. Cleonice não será sepultada no Cemitério Público, nem na Igreja, iremos sepulta-la num lugar onde a mesma determinou antes de morrer e deixou por escrito, agradeço a compreensão". E a carruagem seguiu, puxada pelos dois cavalos, perdendo-se de vista por entre a poeira da rua sem calçamento, e tomando destino ignorado.
Até hoje, o que se ouve dos boatos da época, é que, com vergonha de terem que enterrar a irmã em uma cova, e sua língua em outra, as irmãs Moura fizeram o sepultamento de Nice em um cemitério fantasma, que fica entre o Sítio Reis da Usina São João, e os limites com o vizinho Município de Cruz do Espírito Santo, onde só há ali cerca de 7 catacumbas, duas delas são: uma a de Nicinha, e a outra da sua língua.

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

VIOLINA MARIA DA CONCEIÇÃO (*1900 +1989) (Continuação....)

Como prometido, após a primeira parte em que contamos da vinda de Violina de Portugal para Santa Rita, PB, segue o restante da sua história....



Feminista por convicção e por natureza, Violina sempre mostrou-se aguerrida em defender a igualdade de direitos, e a capacidade das mulheres em exercerem atividades consideradas exclusivamente masculinas. Por conta disso, à casa de Violina sempre iam muitas mulheres, de “Senhoras de Família” abastadas, que violentadas pelos próprios esposos dentro de casa, ou reduzidas suas capacidades à famosa “do lar” na hora de professar seus ofícios, para ali encontrarem um refúgio para suas lágrimas, mesmo que de forma abscôndita, na calada da noite para não serem vistas, como também iam senhoras mais simples, com dores e penas análogas, às “Raparigas Retirantes”, como eram chamadas as prostitutas da época, que não tinham ponto ou lar fixos, e eram obrigadas aventurar pelos Cabarés mundo afora, fazendo temporada, umas por gosto, outras por sobrevivência, todas, sem exceção ou distinção, encontravam naquela casa simples da Volta do Quimba, literalmente uma “sombra” para descansarem seus penares e receberem doses de autoestima e empoderamento. Dizia-se na época, que os homens ficavam plácidos e ressabiados, ao tomarem conhecimento que suas companheiras se bandearam pros lados da Usina São João, pois temiam terem ido à “Casa da Portuguesa”, e de lá voltado insubordinadas e donas de si. Um grande mistério rondava a vida de Violina o fato de ter sido casada 7 vezes, e em todas as 7 enviuvado. Sempre, seus esposos foram acometidos de morte súbita de formas mais ilógicas possíveis, à exemplo de João Tavares, comerciante, que aos seus 35 anos de idade chupava mangas embaixo de uma das centenárias árvores ao redor da casa, quando caiu liquidado, sem ter demonstrado qualquer problema de saúde antes, e Antonio Relojoeiro, que tinha uma pequena oficina de conserto de relógios na Rua do Cantinho, que dormiu para a eternidade num fim de tarde, quando após a Ave Maria das 18hs, cantada todos os dias por Amália Rodrigues numa rádio Portuguesa, que eles ouviam no rádio de ondas curtas deixado de herança pelo pai de Violina, onde, ao engrunhir num aparente cochilo, foi percebido seu corpo gélido depois de duas horas sem acordar, ou Silvio Pedro, contra-mestre de tecelagem da Companhia de Tecidos Paraibana (Fábrica Tibiry), que pendeu inerte sobre a latrina, na casinha nos fundos do quintal, logo após ter obrado. Sobre o Pai de Violina, Sr. Joaquim, seu decesso se deu por um derrame cerebral fulminante, no portão de entrada da Usina São João, quando o mesmo foi buscar uma garrafa de mel de engenho para fazer doce de jaca mole. Seu corpo foi sepultado num cemitério que fica às margens da estrada de barro, após o Sítio Reis, na mesma localidade. Ainda com relação às suas 7 viuvezes, além da curiosidade das mortes súbitas dos maridos, o que pode ser considerado o maior mistério da vida de Violina, era que, a mesma nunca permitia que ninguém preparasse os corpos dos defuntos para serem velados, ela mesma fazia todo o serviço, de forma recôndita, às portas fechadas, e, como nas casas antigas as paredes não chegavam até a cumeeira, dava para ver que, em cima do guarda-roupas, sempre ela colocava uma caixa, feita de madeira, e com um pequeno cadeado fechando, como se colecionasse aquelas caixas após o falecimento de cada esposo. O que tinha dentro daquelas caixas? Só Deus sabe! Várias eram as especulações e estórias que as fofoqueiras da Paróquia criaram em torno desse fato, inclusive, inventaram o epíteto de “7 caixas”, chamando (pelas costas é claro), de “Violina 7 Caixas”. Um belo dia, à sombra de um pé de Fruta-Pão, que ficava à direita da casa, Violina bordava um vestido de linho branco, quando para à sua frente uma mulher com seus 30 anos de idade, considerada “coroa” para a época. Violina ficou boquiaberta com a figura daquela mulher, que tinha aproximadamente 1,70m de altura, corpo cheio, mas não gorda, com um vestido na altura dos joelhos vermelho, decotado, cujos seios pinchavam do decote, nos ombros um belo xale Português preto de seda, nos pulsos muitas pulseiras douradas, brincos extravagantes, um anel mais excêntrico ainda com uma enorme pedra vermelha, adornava o dedo da mulher, seus lábios volumosos estavam bem evidenciados pelo rubor do batom, na tonalidade mais forte de vermelho, e sua pele branca, sem rugas, parecia uma porcelana, trazia traços de Rouge Carmim, sem falar no perfume que provavelmente podia ser sentido léguas de distância, nos seus cabelos volumosos e cortados em camadas até a cintura, uma grande flor vermelha com um friso, adornava o lado direito, deixando a orelha à mostra. Ô de dentro, disse a mulher, ô de fora, respondeu Violina, a senhora poderia me dar um copo d’água, por gentileza? Perguntou a mulher. A partir daí, começou uma conversa entre as duas que durou 3 meses. Tratava-se de uma “Rapariga Retirante” de nome de guerra “Isolda Pele de Veludo”, mas na verdade seu nome de batismo era Cleidauçira, natural de Recife, vinha fugida de um Cabaré da Rua da Guia, naquela cidade, onde teve que dar aos calcanhares, após ser ameaçada de morte por um Coronel importante de lá, que, apaixonado, queria abandonar a família para se amigar com Isolda, e a mesma achou tão absurdo que caiu em retirada. As histórias daquela mulher encantaram Violina, pois, assim como ela, via naquela mulher-personagem, a prefiguração da insubordinação ao machismo e aos padrões ditados pelas tidas como “pessoas de bem da sociedade”, que primavam pela moral e bons costumes, mas, nos esconsos dos seus lares, praticavam toda sorte de infortúnios de causarem escândalo até no Tinhoso. Violina deu uma ideia lucrativa à Isolda, que mudou totalmente a vida daquela cortesã, que foi, fundar um Cabaré na Volta do Quimba, no entanto, a coparticipação da Portuguesa deveria ficar em segredo. Violina arquitetou tudo, promoveu o encontro amoroso de Isolda com um figurão importante da época, um homem influente que, ao pedir ao dono da Usina, que cedesse uma casa que estava desocupada, próximo à mata na Volta do Quimba, para que Isolda ali morasse, o mesmo não fez objeção, e cedeu o imóvel. Ali fundava-se o afamado Cabaré da Usina, ou Cabaré da Volta do Quimba, como era conhecido. Violina estava feliz e satisfeita, e nos dias em que o estabelecimento não atendia clientes, geralmente às segundas feiras, ia visitar a amiga e dar boas gargalhadas das histórias contadas por Isolda e suas “Pombinhas”, que ao todo eram 8 mulheres, todas com sonhos, dramas, e história para contar. Naquele ambiente, a função social de conselheira e professora de Violina era exercida na sua plenitude, pois a mesma além de alfabetizar as moças que ali chegavam sem nenhuma escolaridade, ou com baixa leitura, lhes servia de conselheira, a tal ponto que chamavam-lhe de “Mainha Vió”. Violina não sabia, mas 10 anos após acolher Isolda, a mesma lhe fez uma grande surpresa, deu-lhe de presente uma boa quantia em dinheiro, fruto das economias que fez, de cada cliente que a procurava em busca de amor passadiço, para com esse dinheiro, a Portuguesa realizar seu atual sonho, que era voltar à sua terra natal para findar seus dias.

Assim se fez, em 1980, Violina embarca na cidade do Recife, num voo para Portugal, com 80 anos de idade, muita história, recordações, e suas 7 caixas na bagagem, no Hall do Aeroporto, choravam na despedida Isolda, suas 8 “Pombinhas”, duas freiras progressistas missionárias amigas de Violina, que moravam em Cruz do Espirito Santo, e um influente comerciante de Santa Rita que por anos foi amante da mesma. Violina faleceu em 1989 em um chalé, nos arredores de Mêda, deixando apenas suas lembranças na sua passagem de vida entre Portugal-Brasil, Mêda-Santa Rita. Isolda foi embora, de Santa Rita na década de 1990, após o fechamento do Cabaré da Volta do Quimba.




(Esta é uma estória de ficção. Qualquer semelhança com as personagens e os fatos são mera coincidência)

VIOLINA MARIA DA CONCEIÇÃO (*1900 +1989)

Nos arredores da "Volta do Quimba", caminho da Usina São João, viveu uma das mais emblemáticas e enigmáticas figuras que a Rainha dos Canaviais já conhecera. Trata-se de uma Portuguesa, nascida na cidade de Mêda, num chalé simples, ao lado da Torre do Relógio, e trazida para Santa Rita ainda adolescente, aos 14 anos de idade, Violina veio com seu pai Joaquim Rodrigues, fugidos da 1a Guerra Mundial, onde o mesmo assumiu o posto de Mestre de Caldeira da citada Usina, e receberam uma casa simples para morarem, no contorno que por coincidência trazia o nome de Volta do Coimbra, mas, popularmente era e ainda é chamado de "Volta do Quimba". Sua Mãe, Maria Rodrigues da Conceição, falecera de Tifo ainda em Portugal, 3 meses antes da vinda da família para Santa Rita. A casa de Violina era uma casa modesta, cercada de frondosos pés de Manga, alguns centenários, que faziam sombra do nascer ao por do sol em todos os lados da casa. as paredes de tijolos maciços rebocadas com barro, permaneciam úmidas o ano inteiro, devido as sombras das Mangueiras, e a água em abundância que permeava o solo do local, em que, se cavando 2 metros já dava água. O terreiro da casa sempre bem varrido e arejado, onde galinhas passavam o dia ciscando, trazia um clima de paz e tranquilidade para o derredor da residencia. No fundo do quintal, a "casinha", feita de taipa e coberta de palhas de coqueiro. A cozinha muito simples, comportava um fogão de carvão, feito de barro e tijolos, uma "bateria de alumínio", onde as panelas eram penduradas, sempre muito areadas, uma mesa, 4 tamboretes, uma forma grande e um pote médio reservavam a água, e um Petisqueiro guardava os pratos na parte superior, e mantimentos na inferior. Nos quartos camas com colchões de palha e lençóis de chita, sempre cheirosos à sabão de coco, e na sala, uma cuspideira atrás da porta, um jarro com um pé de comigo-ninguém-pode no canto, quadros com retratos de familiares na parede, uma namoradeira de palhinha, uma mesa forrada por uma toália bordada, com um jarro de flores, uma quartinha com um copo, e um rádio "rabo quente" de ondas curtas, adquirido em 1922, onde podia ouvir a Rádio Lisboa, e matar saudades da sua terra ao som dos Fados. Espalhados pela casa, lampiões à querosene pregados nas paredes iluminavam durante a noite.


Violina fez o Pedagógico e tornou-se professora, donde veio alfabetizar boa parte dos ticuqueiros* da Usina, vizinhos, e qualquer pessoa que a procurasse, tendo troncos de árvore como cadeiras, o terreiro da sua casa como sala de aula, e a parede como lousa. Mais tarde, como tornou-se afamada pelas suas alfabetizações, o proprietário da Usina a contratou como professora, e a mesma ia no trem que levava cana de açúcar, para dar aula em outras usinas e povoados próximos, pertencentes à Companhia Industrial. (Breve continuarei a curiosa história de vida de Violina)

*Ticuqueiros: Trabalhadores da cana-de-açúcar. Diz-se aqueles(as) que trabalham na "palha da cana", cortando e limpando a planta, a ser recolhida e manufaturada pela Usina.

CATARINO, o Rapaz-Velho.

Catarino era um rapaz-velho, do Alto das Populares, só via pelo olho esquerdo, e falava pelo canto da boca, tão baixo e ligeiro que muitas vezes não se conseguia entender o que ele dizia. Catarino a vida toda só usou calça marrom, camisa caqui, e alpercatas de couro com os dedos de fora, parecia uma farda de antigo vigia de rua.

Só vivia trancado dentro de casa, as pessoas só viam Catarino, na missa de domingo na Igreja das Graças, na feira às 04:30 da madrugada, ou na festa de finados. Um dia, na dita festa Catarino enlouqueceu, ao visitar o cemitério Santas Almas, deparou-se com um túmulo, onde uma foto de loiça reluzia sobre a fria lápide, na foto os dizeres: “Aqui jaz Antonio Estivador, viveu pelo seu trabalho, dignou-se resignado, morreu de amor. Descanso eterno daí-lhe Senhor, a luz perpétua e o esplendor.”, seguido da data do seu falecimento, que contava de sete dias anteriores àquele. Catarino deu um escândalo, chorou, jogou-se no chão, sujou-se com o pó do chão de barro. Os gritos de Cararino ecoaram e fizeram parar até a roda gigante do Olinda Parque. O homem do Bozó parou, o vendedor de rodetes ficou boquiaberto, as viúvas que rezavam seus terços não sabiam mais se estavam no primeiro ou no quinto mistério, a boca de som da roda gigante silenciou, o balançador de canoas parou, o casal que comprava maçã de amor deixou cair o dinheiro da mão do vendedor que também estava com os olhos arregalados, a mulher que acendia velas queimou os dedos na chama do fósforo que com o seu espanto, parado ficou. Pobre Catarino, parecia que o mundo inteiro estava em pausa, como num filme, e só Catarino, com o seu desespero, aos prantos, aos gritos, rodando com a mão na cabeça olhando para a abóbada celeste pontilhada de estrelas, como se buscasse uma resposta para a sua aflição. Catarino descalçou-se das suas alpercatas arregaçou as pernas da sua calça marrom, rasgou no próprio peito sua camisa caqui, e rumou, correndo pela ladeira, ainda de barro, do Planalto, passando aos gritos pela porta de Igreja do Rosário, cuja missa também havia silenciado e os fiéis do lado de fora, estupefatos, acompanhando com olhares atentos o clamor de Catarino, que rumou e adentrou à mata da Usina São João, e até a presente data, 58 anos depois, nunca mais viu-se ou se ouviu falar em Catarino.



O MENINO QUE MANDOU CELEBRAR MISSA DE 7º DIA DA SUA VIZINHA AINDA VIVA.

  No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era...