segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A MISTERIOSA MARIA SENHORA, VENDEDORA DE ASSAFRÔA

Em um mocambo rústico, bem afeiçoado, localizado no Alto dos Eucalyptos em Santa Rita, PB, morava uma das figuras mais enigmáticas da cidade, conhecida como: “Maria Senhora”.





Foto: Reprodução da Internet


Maria Benvenuta da Purificação, era filha única de um casal de escravizados da costa do Benin, cujos nomes de colonizados eram Joaquim dos Anjos, e Santina Maria da Conceição, de propriedade do Engenho Tibiri de Cima, libertos em 1888  quando da promulgação da Lei Áurea, e que trabalharam na construção dos alicerces e fundações da Companhia de Tecidos Parahybana, a Fábrica Tibiri, inaugurada em 1890.

Joaquim e Santina conseguiram com o consentimento dos proprietários da Fábrica Tibiri, construir um mocambo na parte alta do terreno de propriedade da empresa, de onde se tinha a visão privilegiada de parte do Vale do Rio Parahyba do Norte, Açude Tibiri e morro que ladeava o mesmo, como também, o centro da cidade. Ali, de forma artesanal, fabricaram os próprios tijolos de massa crua de barro com capim, secados ao sol, e telhas de coxa, ambas técnicas herdadas do período da escravidão, onde as telhas eram moldadas nas próprias coxas pelos escravos. O piso do casebre era de barro pisado, e a parte interna muito simples, contendo apenas dois cômodos , uma mesa de madeira com 4 tamboretes, um baú onde guardavam suas peças de roupa, uma cama feita de paus amarrados, e sobre a cama um colchão de capim; na parede, apenas um lampião à querosene; na cozinha um fogão de lenha e carvão feito de barro, um pote, um pilão, uma forma e uma quartinha; pendurado sobre o fogão um fumeiro para secar tripas, peixes e tiras de carne. Na parte externa da casa havia um alpendre na frente e outro atrás, e o terreno era muito bem planeado, limpo, todo cercado por pés de crote e aveloz, onde as galinhas podiam ciscar, também patos e guinés passeavam tranquilos. Após a cerca, uma cacimba, servia tanto para o consumo da casa quanto para irrigar uma pequena horta, de onde cultivavam verduras e legumes para o seu consumo, e uma plantação de macaxeira, também para consumo próprio. Todo esse cenário era rodeado de incontáveis  palmeiras de Macaíba, Jaqueiras, Mangueiras, Araçás, Cajueiros e Mangabeiras, um imenso pomar que garantia frutas para o ano inteiro, de onde vinham pessoas de todos os cantos colher.

Em 1910 Joaquim e Santina faleceram, com diferença de 30 dias um do outro, primeiro faleceu o marido, com 80 anos de idade, em seguida a esposa, com 75, deixando sua filha única, Benvenuta, que desde muito jovem já era chamada de Maria Senhora, devido seu jeito muito sério, porém sereno, modo de se vestir e comportamento, que a faziam parecer muito mais velha do que realmente era, pois, quando da morte dos seus pais, a mesma tinha apenas 35 anos de idade.

Maria Senhora viveu sempre do seu  trabalho de subsistência, seus pais deixaram o suficiente para que não precisasse se submeter como criada na casa de ninguém. Onde morava tinha criações e plantações necessárias ao seu consumo e, além disso, aprendera com sua mãe, fazer colorífico de Assafrôa, uma perfumada e pequena flor branca de talo avermelhado que, após separar as pétalas, os talos eram colocados para secar em uma bacia no sol, depois de secos, iam ao pilão e então reduzidos a pó para ser usado como colorífico no preparo de alimentos, conhecido como “colorau de Assafrôa”. Além de produzir essa especiaria, usava os talos das folhas de Macaíba para fazer vassouras, e toda matéria prima conseguia de graça, devido a enorme quantidade da palmeiras naquela localidade. Todo o material produzido por Maria Senhora, era vendido aos sábados, na porta da Fábrica Tibiri, quando os funcionários  que também eram moradores da vila, saíam com o salário semanal no bolso, já no domingo, fazia as mesmas vendas na feira livre,  em frente à Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia.

Foto: Alemão Bruno Bougard. Retrata a visão que se tinha dos fundos da casa de Maria Senhora

Maria Senhora era enigmática, pois aparentava ter dupla personalidade. A que saía às ruas vendendo seus produtos era de uma pessoa, vaidosa, sempre com vestidos  muito bem costurados à mão pela mesma, colares diversos no pescoço, alguns escondidos por dentro da roupa, herdados da sua mãe, trazidos do  país de origem dos seus pais, cabelo bem assentado e brilhante, tratado com óleo de coco, e sempre um misterioso sorriso de canto de boca, que nunca revelava totalmente seu estado de espírito. 

Apesar de pessoas com os seus arquétipos, serem um prato cheio para crianças e desocupados colocarem apelidos e virarem motivo de chacotas, pilhérias e outros tipos de violência, ninguém nunca ousou fazer uma anedota, ou soltar uma pilhéria que fosse àquela imponente senhora que, onde chegava, causava silêncio e total atenção dos presentes, e quando passava onde tivesse uma roda de meninos brincando, os mesmos paravam a brincadeira para que ela passasse.

Alguns mais velhos comentavam sobre hábitos pouco ortodoxos de Dona Maria Senhora em sua casa, que ouviram dizer de não sei quem, que foi falado por não sei quem lá, de que em casa ela era estranha, mas, ninguém ousava subir o Alto dos Eucalyptos para importuna-la na sua própria casa, pois, os pés de crote que a rodeavam eram altos, e ficavam distante das paredes da casa, e os andarilhos que por ali passavam, só viam mesmo o portão da frente e dois cachorros vira-latas de grande porte que permaneciam o dia todo de prontidão para atacar quem se aproximasse. A casa era quase que um santuário intocado e inviolável, e a única residência que Maria frequentava e tinha o mínimo de intimidade de conversar, era no casarão dos proprietários da Fábrica Tibiry, ou para lhes levar semanalmente de cortesia parte da sua produção de especiarias, ou ainda, quando alguém da casa adoecia, para que a mesma fizesse beberagens curativas com plantas medicinais, e quando algum dos filhos menores acometia de mau olhado, Maria Senhora os rezava e curava.

Existe uma máxima popular que diz: “menino é bicho danado”, pois bem, certa feita, alguns meninos da vila operária se juntaram, se resolveram confabular a cerca de uma possível inspeção de espionagem na casa de Dona Maria Senhora, e verem com seus próprios olhos o que de fato acontecia ali de tão misterioso, que as pessoas faziam mil suposições de como seria a outra personalidade da mulher dentro da sua casa. Uns diziam que ela se encantava, ficava invisível, outros diziam que ela conversava com os espíritos, outros ainda que seus pais falecidos se materializavam, e alguns, que a mesma praticava magia, herdada da origem dos seus antepassados,  mas, eram apenas suposições, ninguém de fato afirmava o mistério que era a vida daquela senhora na inviolabilidade do seu lar, já que ninguém, nunca, nem quando seus pais eram vivos, fora convidado uma única vez sequer à entrar na sua propriedade.

Um belo dia, num grupo de alguns meninos que planejavam bisbilhotar a intimidade de Dona Senhora, apenas 3 tiveram coragem e armaram um plano, que consistia em: já que existiam dois imponentes cães guardando o tempo todo a casa misteriosa, planejaram jogar alguma isca para que se afastassem do portão, e iam jogando mais iscas até distancia-los o suficiente, até onde teria alimento para que os cães se distraíssem comendo, e desse tempo de espiarem o mínimo que fosse. E assim o fizeram, à passos sutis e pausados, foram se aproximando agachados nos matos até próximo ao portão da casa, e ali jogaram um pequeno peixe no terreiro bem limpo e varrido, embaixo de um imenso pé de manga. Os dois cachorros imediatamente morderam a isca, e assim  jogaram outro mais distante, e foram se distanciando e os cães se afastando, até que, embaixo de uma jaqueira, já bem distante da casa, estava preparado um banquete de tripas, couros, e cabeças de galinha que os meninos recolheram nos restos da feira. Um ficou atocalhando os cães, para, caso voltassem anunciaria com assobios, e dois foram para a cerca da casa, em busca de um melhor lugar para investigar o que acontecia na casa daquela senhora.

Finalmente, após alguns minutos acocorados por entre as folhas da cerca, só viam a fumaça do fogão a lenha saindo pela brecha das telhas, as portas e janelas da casa todas arreganhadas, no pátio duas bacias de alumínio espelhadas de tão areadas e cheias de Assafrôa. Secando, embaixo do alpendre do quintal alguns feixes de talo das folhas da Macaíba, e nenhum sinal de Dona Maria Senhora. Aquele silêncio todo começou desencadear um nervosismo e o pânico já tomava conta dos dois, pois temiam ser avistados, ou atacados pelos cachorros, caso voltassem, mas, para espanto dos meninos, o que eles tanto queriam ver aconteceu, eis que na porta da cozinha para o alpendre do quintal, surge imponente, a figura de uma mulher preta, com os seios totalmente à mostra, cabelos crespos soltos e erguidos, uma saia longa e rodada de chita, com o cós enrolado feito uma roldilha e as laterais levantadas, deixando as pernas à mostra até os joelhos, as duas mãos nos quartos e um grosso cachimbo de anjico na boca, soltando generosas fumaçadas. Com um olhar ao ocaso, o semblante daquela mulher de aparência tribal, parecia perdido, ou vislumbrando algum porvir, haja visto que na sua boca, se desenhava um largo sorriso, mostrando os dentes, que ninguém jamais tinha visto, brancos e firmes como pérolas. Os meninos quiseram correr, pois não sabiam como lidar com aquela imagem jamais imaginada ou vista onde quer que fosse, mas, simplesmente perderam as forças nas pernas, e não conseguiam sequer segurar o queixo na boca. Continuando a triunfante aparição, a mulher deu alguns passos para a frente, colocando-se no sol, saindo da penumbra do alpendre, foi quando a surpresa dos meninos os deixou ainda mais estupefatos, perceberam que, aquela personagem inenarrável era de fato Maria Senhora. Sua pele negra besuntada de óleo de coco brilhava no sol, seu semblante era diferente, de satisfação, sorridente, altiva, parecia uma rainha seminua e despenteada, algo totalmente estranho aos costumes da época. 

Continuando sua aparição, Dona Maria sentou-se em um rolo de Macaíba que havia encostado perto da porta, colocou a saia entre as pernas e, segurando aquele pesado cachimbo entre os dentes dando generosas fumaçadas, começou juntar os feixes de talos e amarra-los, formando as vassouras que levava à feira para vender, de repente, trincando o canudo do cachimbo entre os dentes, começou cantarolar uma cantiga que dizia assim:

 “Otê, Padre Nosso com Ave Maria
Securo camera qui tanganãzambe, aiô
Aiô, Taganãzambe, aiô
Calunga qui tom´ossemá
Calunga qui tom anzambi, aiô”

A cantiga era cantada como um mantra, e cada palavra pronunciada, revelava um sorriso aberto e o brilho nos olhos daquela senhora, que amarrava cuidadosamente cada feixe, sob aquela toada provavelmente aprendida com seus pais.

De fato a figura de Maria Senhora não era algo que deveria ser visto por ninguém, pois, para os padrões da época era um escândalo, uma mulher negra, seminua, livre, totalmente livre, de paradigmas e regras de convivência, de pensamentos e comportamentos colonizados, a sociedade não estava preparada para tamanha liberdade e, aquele estilo de vida escondido era o único espaço onde se via um sorriso pleno daquela rainha nagô, que demonstrava como seus pais viviam livres e felizes antes da diáspora, na terra em que eram autóctones e verdadeiramente livres. Foi assim nessa liberdade que Dona Maria Senhora foi criada, porém, tinha que se privar de vez em quando para poder obter o lucro do seu trabalho.

E os meninos curiosos? Ouviram o sibilar do assobio do amigo que ficou pastorando os cachorros e não contaram conversa, correram que os pés batiam nas nádegas, e ao chegarem na beira do açude, esperaram pelo outro que, quando chegou, os mesmos mal conseguiam contar direito o que viram, de tão nervosos. Um falando na fala do outro, atropelando as palavras, e o terceiro menino que não viu a cena os olhou com um olhar  de reprovação e disse: “o que vocês mentem em um dia, o galo não canta em um ano! Vocês acham que alguém vai acreditar nessa mentira cavernosa que vocês estão inventando? Vamos embora pra casa que nossas mães já devem estar nos procurando”. E assim foram, uns dizendo que estavam falando a verdade, o outro dizendo que era mentira, mas nunca tiveram coragem de levar a história adiante, para não levarem uma surra dos seus pais pela suposta mentira.

Maria Senhora depois de idosa, já sem forças para cuidar de roçado, foi convidada à morar nos aposentos dos empregados, da casa grande dos donos da Fábrica Tibiri, e trabalhar apenas como cozinheira da família, a mesma aceitou, e ali terminou seus dias quando morreu ainda lúcida, andando, cozinhando etc, onde “foi dormir e acordou morta”, como dizem popularmente as pessoas ao retratar uma morte súbita.



Esta é uma estória, baseada em histórias. Qualquer semelhança com a realidade é apenas alegoria ou mera coincidência.

O MENINO QUE MANDOU CELEBRAR MISSA DE 7º DIA DA SUA VIZINHA AINDA VIVA.

  No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era...