No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era tido por muito peralta. Nascido no Alto das Populares, depois foi levado para morar no centro da cidade, às margens do riacho Tibiri, onde viveu até seus 4 anos de idade, quando finalmente mudou-se com sua família para Tibiri Fábrica.
O menino era muito "astucioso",
como dizem os mais velhos, pois, levava seu tempo à fazer traquinagens, tanto
pelos quintais das casas da "Rua de Baixo", assim é mais conhecida no
bairro a rua José de Alencar, como, por entre os gigantescos Ipês e pés de
castanhola da "Rua de Cima", como também é conhecida a Rua General Osório,
tendo a linha férrea da CBTU um marco divisório entre as duas ruas, uma defronte a outra.
Era um menino que, apesar de
traquino, era muito piedoso, pois gostava de ir praticamente à todas as missas celebradas
durante a semana na Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia, mas, sua preferida
era do domingo às 5h30 da manhã. Para ele era um evento, acordar antes das 5h
todos os domingos, tomar seu banho, colocar sua roupa, calçar seus sapatos, e
ficar esperando uma das suas vizinhas passarem para a igreja, e
acompanha-las, geralmente eram duas vizinhas, quando não ia com uma, ia com a
outra, uma era viúva, e a outra casada.
Um belo dia, cumprindo sua rotina
matinal dominical, o menino fica à espreita para ver quem iria
à missa naquele dia e, por "sorte" ou desventura da mesma, foi a
vizinha casada, que já passou pela calçada chamando pelo nome do menino, que
prontamente já estava à postos e a acompanhou. Chegando na Igreja Matriz de
Santa Rita de Cássia, o dia ainda estava amanhecendo, pois era inverno, e o sol
só aparece por volta das 5h30/6h da manhã, mas, naquele dia estava típico, frio, o céu da cor de chumbo, as luzes dos postes ainda acesas, davam a
impressão de ainda ser noite, e depois que entraram na
igreja, uma chuva torrencial começou a cair lá fora, deixando o clima ainda
mais agradável e aconchegante para uma missa dominical, igreja,
silenciosa, poucas pessoas, escuro lá fora, uma beleza, nem imaginavam o que
estava por vir naquela missa.
Na sacristia, um padre belga, chamado Paulo Koellen (de saudosa memória), paramentava-se para iniciar seu sacro ofício, enquanto algumas senhoras espalhadas pela igreja rezavam piedosamente seus terços, compenetradas, com seus véus rendados na cabeça balbuciando as ave-Marias que debulhavam nos seus rosários, outras, cochichando entre si mas não rezando, e sim, dando conta do apanhado da semana que puderam bisbilhotar da vida dos outros. Em meio à esse cenário de fé e futricos, o vento da chuva trazia da porta principal um cheiro de perfume com aroma atalcado que tomava conta da igreja, e sem nem abrir os olhos já sabiam que se tratava de Dona Rizomar (de saudosa memória), comerciante local, muito bem arrumada e maquiada, com sua pele alva corada de ruoge, e o cheiro do seu perfume assinatura chamado Promesa, quando era sentido, já diziam "Dona Rizomar vem por aí".
Na primeira fileira da nave central da igreja, algumas pessoas já tinham seus lugares marcados, outras, de notoriedade ou poder aquisitivo mais elevado, ainda tinham cadeiras particulares, com suas iniciais gravadas no encosto, cujo assento era móvel, levantava, tornando a cadeira um genuflexório, para suas preces de joelhos na hora da oração eucarística, ou, como algumas gostavam, para rezarem o terço.
Na porta da Igreja ficava uma das
piedosas senhoras que ajudavam na organização da igreja, chamadas popularmente,
de forma pejorativa, de "Beatas", esta, tinha como função anotar numa
folha, as "intenções da Santa Missa", que poderiam ser de ações de
graças, sétimo dia de falecimento, e intenções gerais pelos fiéis defuntos
com mais de 7 dias de falecidos, além dos que completavam aniversário de exéquias,
e foi aí que aconteceu o inesperado.
O menino, tinha nessa época cerca
de 6 a 7 anos de idade, e já sabia ler e escrever, graças à educação doméstica
de letramento que sempre teve e o fez ingressar no antigo pré-escolar, aos 5
anos de idade, já alfabetizado. Este teve uma ideia inusitada quando viu a "beata"
anotando os nomes dos fiéis defuntos, dados por seus familiares que chegavam à
igreja. Aproveitando uma rápida ausência daquela senhora, que se retirara para
ter algum assunto com o padre, o menino foi até sua mesinha, pegou
o lápis, e escreveu na folha de intenções de 7º dia de falecimento, os nomes completos
da vizinha que o trouxera para aquela missa e do seu esposo, que ainda era vivo. Depois de fazer essa, que foi uma das suas maiores peraltices,
o menino sentou ao lado da senhora, sua vizinha e vítima, com a cara mais santa e piedosa
que pudesse existir, vendo a hora emanar uma luz da sua aura e ser confundido
com um dos querubins que ornavam os pés da imagem de Nossa Senhora das
Graças, tamanha era a dissimulação daquela criança.
Chegada a hora de iniciar a
missa, com o padre já à postos, uma das ministras da eucaristia precipitou-se
ao ambão para proceder com a leitura das intenções, começou com as intenções de
ações de graças, um agradecendo à Santa Rita pela saúde de um parente que foi
restaurada, outro à São José por um emprego alcançado, e por aí foram, mas
quando a leitora disse: intenções de sétimo dia de falecimento, o coração do
menino foi a mil por hora, suas carnes tremiam, seu cabelo arrepiava, sua pele
suava, com a carga de adrenalina da sua ansiedade para ver a reação da pobre
senhora que o acompanhava naquela missa, e quando a leitora disse: FULANA DE
TAL DA SILVA e seu esposo FULANO DE TAL DA SILVA, o susto foi tão grande que a
senhora, sua vizinha, soltou o terço que trazia nas mãos, sentou-se, pois
estava em pé, e balbuciou em voz baixa: "sangue de Cristo tem poder,
misericórdia Senhor, eu e "FULANO" estamos vivos, quem pode ter feito
isso?", e assim essa senhora ficou, em estado de choque até o final da
missa.
Uma hora e meia depois, já por volta das 7h da manhã, lá fora ainda caia muita chuva, a missa terminou, e mal esperou o padre dizer "ide em paz, e o Senhor vos acompanhe", a mulher já saiu apressada para a sacristia, para tirar satisfações com o padre e com a "beata", sobre quem por ventura teria dado o seu nome e do seu esposo para a missa de 7º dia, se ambos estavam vivos.
Foi um verdadeiro randevú na sacristia, a beata disse que não foi ela quem escreveu, pois aquela não era a letra dela, o padre pedia calma às senhoras, a vizinha exigia que dissessem quem foi que deu o nome dela e do esposo, a beata dizia que não tinha explicação, pois nem ninguém deu esses nomes à ela, e nem aquela caligrafia era sua, estavam tão alteradas que sequer a beata lembrou que tinha saído por alguns instantes e poderia ter sido nesse intervalo que alguém tivesse anotado.
Do
lado de fora da sacristia, o menino esperava com paciência sua vizinha findar a
discussão, para retornarem às suas casas, sãos e salvos, debaixo de chuva e,
mais uma vez, aquela criança demonstrava uma candura e pureza tão angelical,
que jamais, ninguém ousaria insinuar que teria sido ele o autor da traquinagem,
e até hoje, a senhora ainda está viva e lúcida, e não sabe quem teria feito
tamanha desventura.

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