quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

CATARINO, o Rapaz-Velho.

Catarino era um rapaz-velho, do Alto das Populares, só via pelo olho esquerdo, e falava pelo canto da boca, tão baixo e ligeiro que muitas vezes não se conseguia entender o que ele dizia. Catarino a vida toda só usou calça marrom, camisa caqui, e alpercatas de couro com os dedos de fora, parecia uma farda de antigo vigia de rua.

Só vivia trancado dentro de casa, as pessoas só viam Catarino, na missa de domingo na Igreja das Graças, na feira às 04:30 da madrugada, ou na festa de finados. Um dia, na dita festa Catarino enlouqueceu, ao visitar o cemitério Santas Almas, deparou-se com um túmulo, onde uma foto de loiça reluzia sobre a fria lápide, na foto os dizeres: “Aqui jaz Antonio Estivador, viveu pelo seu trabalho, dignou-se resignado, morreu de amor. Descanso eterno daí-lhe Senhor, a luz perpétua e o esplendor.”, seguido da data do seu falecimento, que contava de sete dias anteriores àquele. Catarino deu um escândalo, chorou, jogou-se no chão, sujou-se com o pó do chão de barro. Os gritos de Cararino ecoaram e fizeram parar até a roda gigante do Olinda Parque. O homem do Bozó parou, o vendedor de rodetes ficou boquiaberto, as viúvas que rezavam seus terços não sabiam mais se estavam no primeiro ou no quinto mistério, a boca de som da roda gigante silenciou, o balançador de canoas parou, o casal que comprava maçã de amor deixou cair o dinheiro da mão do vendedor que também estava com os olhos arregalados, a mulher que acendia velas queimou os dedos na chama do fósforo que com o seu espanto, parado ficou. Pobre Catarino, parecia que o mundo inteiro estava em pausa, como num filme, e só Catarino, com o seu desespero, aos prantos, aos gritos, rodando com a mão na cabeça olhando para a abóbada celeste pontilhada de estrelas, como se buscasse uma resposta para a sua aflição. Catarino descalçou-se das suas alpercatas arregaçou as pernas da sua calça marrom, rasgou no próprio peito sua camisa caqui, e rumou, correndo pela ladeira, ainda de barro, do Planalto, passando aos gritos pela porta de Igreja do Rosário, cuja missa também havia silenciado e os fiéis do lado de fora, estupefatos, acompanhando com olhares atentos o clamor de Catarino, que rumou e adentrou à mata da Usina São João, e até a presente data, 58 anos depois, nunca mais viu-se ou se ouviu falar em Catarino.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

O MENINO QUE MANDOU CELEBRAR MISSA DE 7º DIA DA SUA VIZINHA AINDA VIVA.

  No bairro de Tibiri Fábrica, em Santa Rita, PB, morava (e ainda mora, pois o personagem desta história real está vivo), um menino, que era...