Estórias e personagens imaginários, criados a partir de histórias reais ou fictícias, no ambiente histórico-social da cidade de Santa Rita, PB
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Antonio Estivador ou Tonho Balaieiro (Antonio Cenezério Esteves de Aguiar)
Nasceu em 20 de agosto de 1901, na Usina Tiúma, São Lourenço da Mata, PE, onde desde criança teve que trabalhar para ajudar na subsistência da família. Mudou-se para Santa Rita, Pb, no ano de 1935, para trabalhar na Ticuca da “paia da Cana” na Usina Santa Rita, no entanto, ali trabalhou por apenas dois anos, devido um novo emprego que conseguira na Estiva do Porto de Cabedelo.
Neto de africanos que vieram para Pernambuco no Século XIX, Antonio era um homem negro, de estatura mediana porém de poderosa força braçal, e vigor físico, de hábitos rotineiros e simples. Acordava sempre antes de o sol nascer, e recolhia-se para dormir junto com as galinhas, como dizia antigamente das pessoas que dormiam cedo. De poucas palavras, o estivador não tinha circulo de amigos, apenas conhecimento com alguns vizinhos que, quando muito, conseguiam um cumprimento por um “bom dia” ou algum breve comentário sobre o clima meteorológico, do tipo: “tá frio hoje né?!”.
Com a idade chegando, Antonio já não conseguia com tanta agilidade manusear as sacas de café, açúcar, algodão, etc, que fizera no Porto por mais de duas décadas, e deixou o trabalho de estivador, bem como sua residência na Vila da Usina, e passou à morar em uma pequena casa de dois cômodos, erguida de taipa com o telhado coberto de palhas, na localidade chamada de “Papo da Coruja”, próximo ao Mercado Público de Santa Rita, onde começara mais uma etapa de sua vida, trabalhar como balaieiro, carregando frutas, verduras e cereais, tanto para os comerciantes, quanto para os clientes que o pagavam para deixar suas feiras em casa.
Antonio não tinha hábitos sociais, a única vez que ele era visto em algum evento, era durante o Carnaval, onde o mesmo se assentava sob um pé de Flamboyant em frente ao Coreto da Praça, com um cigarro de fumo preto, chamado “Boró”, e uma meiota de aguardente, discretamente enrolada em um jornal para esperar a passagem do bloco carnavalesco “Sapato de Pobre é Tamanco”, onde assistia sem nenhuma feição de tristeza ou alegria, quieto, sentado no seu lugar, apenas observando e, vez por outra, dando uma discreta golada no aguardente.
Foi numa dessas saídas, que Antonio conheceu um outro senhor, um “rapaz-velho” igualmente reservado tanto em aparições públicas, quanto em palavras, chamado “Catarino”, que vinha apressado da missa na Igreja Matriz, no afã de chegar logo em casa, e ao passar em frente ao coreto, deparou-se com o balaieiro sentado sob o Flamboyant, na sua única aparição anual em evento público, e ao fixarem-se os olhares por todo o percurso de passagem de Catarino por aquele lugar, culminou com um “Boa Tarde” em uníssono, tanto no proclamar da frase, quanto no erguer o chapéu em sinal de cumprimento, como se os dois estivessem em um jogral milimetricamente ensaiado.
Catarino ficou tão atordoado após a fatídica troca de cumprimentos que, atravessou a rua, todo desengonçado, como que pisando em buracos, procurando chão e não encontrando, quase foi atropelado pela Marinete que era chamada popularmente de “Sopa” e fazia o transporte de passageiros entre Santa Rita e João Pessoa, vindo finalmente, cair por cima de Seu Pedro Engraxate, que tinha uma banca de engraxar sapatos ao lado do Pavilhão Central, obviamente, atordoado pelo incidente.
Um belo dia de domingo, às 04hs da manhã, horário em que o sol ainda ia rasgar o firmamento e anunciar a alvorada de mais um dia, Catarino, que metodicamente o fazia de janeiro a janeiro, vai fazer sua feira de semana, compra bacalhau (que na época era iguaria das classes menos abastadas), verdura fresca, batatas, farinha, e pede a “banda mindinha” de uma galinha de capoeira da banca de dona Rosidalva da Galinha, tudo devidamente acomodado em duas sacolas de agave, já que na época não existiam sacolas plásticas descartáveis. Ao passar pela feira do peixe, o dia já clareando, Catarino põe a mão no ombro de um senhor que estava sentado de costas em um tamborete, fumando um boró, com um balaio do lado, e ao se virar, as duas sacolas caíram das mãos do rapaz-velho, cuja voz quase não sai para perguntar: O senhor poderia levar minha feira?
Após esse dia, populares contam que, Antonio Estivador entrava na casa de Catarino todo domingo às 5hs da manhã, levando a feira, e só saia no alvorecer da segunda-feira. Fato que ocorreu religiosamente por 10 anos.
Havia uma curiosidade sobre o estivador que apenas os poucos vizinhos que ele teve durante a vida sabiam, dizia ele ter o dom da premonição, e sabia o dia e a hora que morreria, portanto, já tinha em seu guarda-roupas a mortalha, o caixão já estava pago, e o jazigo comprado e zelado.
No dia 26 de outubro de 1969, um domingo, clientes e comerciantes do Mercado Público sentiram a falta de seu Antonio Balaieiro, e comentavam entre si, pois, por décadas, ele nunca faltou ao seu trabalho autônomo, nem a hora de chegar, e nem a de voltar pra casa, sempre às 16hs após tomar um café coado na bodega e fumar um Boró, mas naquele dia todas as horas foram contadas, e nada de Antonio. Catarino fez sua feira rotineira, passou 5 vezes pelo mesmo local onde sempre o balaieiro pegava sua feira e levava à sua casa, mas sem sucesso, fazendo o rapaz-velho ter que contratar o serviço de outra pessoa, mas, à passos curtos e lentos, foi até o fim da rua olhando para trás, na vã tentativa de ver por entre os bancos surgir a figura do estivador.
Ao final da tarde, alguns comerciantes se juntaram e foram até o papo da coruja, em busca de notícias de seu Antonio, ao chegarem na casa de taipa, a porta da frente estava fechada, chamaram, bateram palmas, “ô de dentro...ô de dentro...”, ninguém respondia, arrodearam, a porta dos fundos estava aberta, e o fogão de carvão que ficava do lado de fora, em um peque no alpendre de paus coberto de palhas, ainda estava morno, com as últimas brasas cobertas de cinzas, e ao entrarem na casa, encontraram, deitado em um colchão de palhas, vestido com sua mortalha, o corpo inerte de Antonio Estivador, devidamente asseado, com os dedos das mãos cruzados sobre o peito, e embaixo das mesmas três papéis, um era o recibo da funerária, onde constava o caixão pago, outro o recibo do túmulo, e o último algumas linhas escritas os seguintes dizeres: “Aqui jaz Antonio Estivador, viveu pelo seu trabalho, dignou-se resignado, morreu de amor. Descanso eterno dai-lhe Senhor, a luz perpétua e o esplendor”.
Catarino só soube da morte de Antonio sete dias depois, no domingo do dia 02 de novembro de 1969, dia de finados.
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