quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Rosélia de Dona Nôta (Catôtinha)

Santaritense, moradora da Rua Dr. Pedrosa, ao lado do Cine Alvorada (antigo Cine Purga). Moça-velha, catolicíssima, vulto folclórico pelo seu estilo peculiar, usava sempre vestidos do mesmo modelo, diferenciando apenas pelas cores, o corte reto, saia pregueada semi-godê, com cintura alta, quase na altura das axilas, evidenciando seus seios fartos e, o tecido era um só, o mais puro e engomado linho. Rosélia era uma mulher de 35 anos de idade , solteira, naquele tempo já era Moça-velha quem tinha essa idade e fosse solteira, cabelos sempre brilhosos, besuntados com óleo de coco, e com grossa trança até a cintura, rosto forte, com suas sobrancelhas grossas, óculos de armação grossa, chamado "fundo-de-garrafa", bigodes ralo de pelos finos, e um sinal no queixo, de onde eclodiam quatro grossos pelos, dava-lhe uma aparência de 20 anos mais velha e semblante bruxesco. Catôtinha foi um apelido posto pelos meninos traquinos da rua, que, ao descobrirem que a irritava o codinome, tomaram conta, não chamando mais pelo seu nome civil. Rosélia, tinha um comportamento peculiar, que foi sua marca de afamação, sempre na primeira sexta feira do mês, o pároco da época, Monsenhor Abdon Melibeu, celebrava a Missa do Sagrado Coração de Jesus, a qual, a distinta celibatária participava com afinco e devoção, sempre com um delicado véu branco, feito de renda de bilros, cobrindo-lhe a cabeça, como de costume épico. Até então, a história dessa senhora estaria comum aos do seu tempo, não fosse o fato de, na hora dessa missa das primeiras sextas-feiras, no momento em que o pároco rezava, em latim e de costas, como na época, a oração: "por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós Deus Pai, Todo-poderoso...", a resposta de "amém" da assembléia era interrompida pelo grito eufórico de Catôtinha, que arrancava o véu, desfazia a grossa trança, "abalaiando" os cabelos sacudindo a cabeça para os lados, ficava descalça, batia os pés feito criança birrenta, levantava os braços e gritava: "EU QUERO SER DESGRAÇADAAAAAAA...", como os paroquianos já sabiam dessas crises de Catôtinha, não se abalavam muito, mas, o que se seguia deixava a família deveras em polvorosa, a jovem senhora partia rua afora, rumo à feira do "Rala-Bucho", na esquina do cemitério, e lá é que o escândalo era maior. Catôtinha ia de barraca em barraca, desesperada, descabelando-se, e gritando que queria ser "desgraçada", até que os comerciantes à levassem para casa. Um dia, numa dessas crises, ao se dirigir à feira, um caminhoneiro do Sul do país, vindo de Sapé com um carregamento de abacaxis, gentilmente abriu a porta da sua boléia, e convidou a moça para entrar. Após este ocorrido, passaram-se 20 anos sem ter noticias de Catôtinha em Santa Rita, até que, numa primeira sexta feira do mês, já com outro pároco, desta vez, Pe. Paulo Koellem, um grupo de 15 jovens, 8 rapazes e 7 moças, todos bem afeiçoados e bem nutridos, assistiam à missa, ocupando os dois primeiros bancos da igreja, sob os olhares curiosos de algumas carolas assunteiras que perguntavam, quem é esse povo? Ao passo que, outras devotas já bem informadas, responderam: "são os filhos de Rosélia de Nôta ". Espantada, Ismerenciana, que era a mais fofoqueira de todas, pensou em voz alta e, com as mãos no rosto deixou escapar: "Meu Deus, pobre Catôtinha, foi desgraçada mesmo !". Toda a igreja olhou para Ismerenciana com rubor nas faces e lábios trêmulos, beirando uma risadagem coletiva.

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