Em um mocambo rústico, bem afeiçoado, localizado no Alto dos Eucalyptos em Santa Rita, PB, morava uma das figuras mais enigmáticas da cidade, conhecida como: “Maria Senhora”.
Maria Benvenuta da Purificação,
era filha única de um casal de escravizados da costa do Benin, cujos nomes de
colonizados eram Joaquim dos Anjos, e Santina Maria da Conceição, de propriedade
do Engenho Tibiri de Cima, libertos em 1888 quando da promulgação da Lei Áurea, e que
trabalharam na construção dos alicerces e fundações da Companhia de Tecidos Parahybana,
a Fábrica Tibiri, inaugurada em 1890.
Joaquim e Santina conseguiram com o consentimento dos proprietários da Fábrica Tibiri, construir um mocambo
na parte alta do terreno de propriedade da empresa, de onde se tinha a visão
privilegiada de parte do Vale do Rio Parahyba do Norte, Açude Tibiri e morro
que ladeava o mesmo, como também, o centro da cidade. Ali, de forma artesanal,
fabricaram os próprios tijolos de massa crua de barro com capim, secados ao
sol, e telhas de coxa, ambas técnicas herdadas do período da escravidão, onde
as telhas eram moldadas nas próprias coxas pelos escravos. O piso do casebre era de barro
pisado, e a parte interna muito simples, contendo apenas dois cômodos , uma mesa de
madeira com 4 tamboretes, um baú onde guardavam suas peças de roupa, uma cama
feita de paus amarrados, e sobre a cama um colchão de capim; na parede, apenas
um lampião à querosene; na cozinha um fogão de lenha e carvão feito de
barro, um pote, um pilão, uma forma e uma quartinha; pendurado sobre o fogão um
fumeiro para secar tripas, peixes e tiras de carne. Na parte externa da casa havia um alpendre na frente e outro atrás, e o
terreno era muito bem planeado, limpo, todo cercado por pés de crote e
aveloz, onde as galinhas podiam ciscar, também patos e guinés passeavam tranquilos. Após a cerca, uma cacimba, servia tanto para o consumo da casa quanto para
irrigar uma pequena horta, de onde cultivavam verduras e legumes para o seu
consumo, e uma plantação de macaxeira, também para consumo próprio. Todo esse
cenário era rodeado de incontáveis palmeiras de Macaíba, Jaqueiras, Mangueiras,
Araçás, Cajueiros e Mangabeiras, um imenso pomar que garantia frutas para o ano
inteiro, de onde vinham pessoas de todos os cantos colher.
Em 1910 Joaquim e Santina
faleceram, com diferença de 30 dias um do outro, primeiro faleceu o marido, com
80 anos de idade, em seguida a esposa, com 75, deixando sua filha única, Benvenuta,
que desde muito jovem já era chamada de Maria Senhora, devido seu jeito muito
sério, porém sereno, modo de se vestir e comportamento, que a faziam parecer
muito mais velha do que realmente era, pois, quando da morte dos seus pais, a
mesma tinha apenas 35 anos de idade.
Maria Senhora viveu sempre do seu trabalho de subsistência, seus pais deixaram o suficiente para que não precisasse se submeter como criada na casa de ninguém. Onde morava
tinha criações e plantações necessárias ao seu consumo e, além disso,
aprendera com sua mãe, fazer colorífico de Assafrôa, uma perfumada e pequena
flor branca de talo avermelhado que, após separar as pétalas, os
talos eram colocados para secar em uma bacia no sol, depois de secos, iam ao
pilão e então reduzidos a pó para ser usado como colorífico no preparo de alimentos, conhecido
como “colorau de Assafrôa”. Além de produzir essa especiaria, usava os talos
das folhas de Macaíba para fazer vassouras, e toda matéria prima conseguia de
graça, devido a enorme quantidade da palmeiras naquela localidade.
Todo o material produzido por Maria Senhora, era vendido aos sábados, na porta
da Fábrica Tibiri, quando os funcionários que também eram moradores
da vila, saíam com o salário semanal no bolso, já no domingo, fazia as mesmas vendas
na feira livre, em frente à Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia.
Maria Senhora era enigmática, pois aparentava ter dupla personalidade. A que saía às ruas vendendo seus produtos era de uma pessoa, vaidosa, sempre com vestidos muito bem costurados à mão pela mesma, colares diversos no pescoço, alguns escondidos por dentro da roupa, herdados da sua mãe, trazidos do país de origem dos seus pais, cabelo bem assentado e brilhante, tratado com óleo de coco, e sempre um misterioso sorriso de canto de boca, que nunca revelava totalmente seu estado de espírito.
Apesar de pessoas com os seus
arquétipos, serem um prato cheio para crianças e desocupados colocarem apelidos
e virarem motivo de chacotas, pilhérias e outros tipos de violência, ninguém
nunca ousou fazer uma anedota, ou soltar uma pilhéria que fosse àquela
imponente senhora que, onde chegava, causava silêncio e total atenção dos
presentes, e quando passava onde tivesse uma roda de meninos brincando, os
mesmos paravam a brincadeira para que ela passasse.
Alguns mais velhos comentavam
sobre hábitos pouco ortodoxos de Dona Maria Senhora em sua casa, que ouviram
dizer de não sei quem, que foi falado por não sei quem lá, de que em casa ela era
estranha, mas, ninguém ousava subir o Alto dos Eucalyptos para importuna-la na
sua própria casa, pois, os pés de crote que a rodeavam eram altos, e ficavam
distante das paredes da casa, e
os andarilhos que por ali passavam, só viam mesmo o portão da frente e dois
cachorros vira-latas de grande porte que permaneciam o dia todo de prontidão
para atacar quem se aproximasse. A casa era quase que um santuário intocado e
inviolável, e a única residência que Maria frequentava e tinha o mínimo de
intimidade de conversar, era no casarão dos proprietários da Fábrica Tibiry, ou
para lhes levar semanalmente de cortesia parte da sua produção de especiarias,
ou ainda, quando alguém da casa adoecia, para que a mesma fizesse beberagens curativas
com plantas medicinais, e quando algum dos filhos menores acometia de
mau olhado, Maria Senhora os rezava e curava.
Existe uma máxima popular que diz:
“menino é bicho danado”, pois bem, certa feita, alguns meninos da vila operária
se juntaram, se resolveram confabular a cerca de uma possível inspeção de
espionagem na casa de Dona Maria Senhora, e verem com seus próprios olhos o que
de fato acontecia ali de tão misterioso, que as pessoas faziam mil suposições de
como seria a outra personalidade da mulher dentro da sua casa. Uns diziam que
ela se encantava, ficava invisível, outros diziam que ela conversava com os
espíritos, outros ainda que seus pais falecidos se materializavam, e
alguns, que a mesma praticava magia, herdada da origem dos seus antepassados, mas, eram apenas suposições, ninguém
de fato afirmava o mistério que era a vida daquela senhora na inviolabilidade
do seu lar, já que ninguém, nunca, nem quando seus pais eram vivos, fora
convidado uma única vez sequer à entrar na sua propriedade.
Um belo dia, num grupo de alguns meninos que planejavam bisbilhotar a intimidade de Dona Senhora, apenas 3
tiveram coragem e armaram um plano, que consistia em: já que existiam dois
imponentes cães guardando o tempo todo a casa misteriosa, planejaram jogar alguma isca para que se afastassem do portão, e iam jogando mais iscas até distancia-los o
suficiente, até onde teria alimento para que os cães se distraíssem comendo, e
desse tempo de espiarem o mínimo que fosse. E assim o fizeram, à passos sutis e pausados, foram se aproximando
agachados nos matos até próximo ao portão da casa, e ali jogaram um pequeno peixe
no terreiro bem limpo e varrido, embaixo de um imenso pé de manga. Os dois
cachorros imediatamente morderam a isca, e assim jogaram
outro mais distante, e foram se distanciando e os cães se
afastando, até que, embaixo de uma jaqueira, já bem distante da casa, estava
preparado um banquete de tripas, couros, e cabeças de galinha que os meninos recolheram
nos restos da feira. Um ficou atocalhando os cães, para, caso voltassem anunciaria com assobios, e dois foram para a cerca da casa, em busca de
um melhor lugar para investigar o que acontecia na casa
daquela senhora.
Finalmente, após alguns minutos acocorados por entre as folhas da cerca, só viam a fumaça do fogão a lenha saindo pela brecha das telhas, as portas e janelas da casa todas arreganhadas, no pátio duas bacias de alumínio espelhadas de tão areadas e cheias de Assafrôa. Secando, embaixo do alpendre do quintal alguns feixes de talo das folhas da Macaíba, e nenhum sinal de Dona Maria Senhora. Aquele silêncio todo começou desencadear um nervosismo e o pânico já tomava conta dos dois, pois temiam ser avistados, ou atacados pelos cachorros, caso voltassem, mas, para espanto dos meninos, o que eles tanto queriam ver aconteceu, eis que na porta da cozinha para o alpendre do quintal, surge imponente, a figura de uma mulher preta, com os seios totalmente à mostra, cabelos crespos soltos e erguidos, uma saia longa e rodada de chita, com o cós enrolado feito uma roldilha e as laterais levantadas, deixando as pernas à mostra até os joelhos, as duas mãos nos quartos e um grosso cachimbo de anjico na boca, soltando generosas fumaçadas. Com um olhar ao ocaso, o semblante daquela mulher de aparência tribal, parecia perdido, ou vislumbrando algum porvir, haja visto que na sua boca, se desenhava um largo sorriso, mostrando os dentes, que ninguém jamais tinha visto, brancos e firmes como pérolas. Os meninos quiseram correr, pois não sabiam como lidar com aquela imagem jamais imaginada ou vista onde quer que fosse, mas, simplesmente perderam as forças nas pernas, e não conseguiam sequer segurar o queixo na boca. Continuando a triunfante aparição, a mulher deu alguns passos para a frente, colocando-se no sol, saindo da penumbra do alpendre, foi quando a surpresa dos meninos os deixou ainda mais estupefatos, perceberam que, aquela personagem inenarrável era de fato Maria Senhora. Sua pele negra besuntada de óleo de coco brilhava no sol, seu semblante era diferente, de satisfação, sorridente, altiva, parecia uma rainha seminua e despenteada, algo totalmente estranho aos costumes da época.
Continuando sua aparição, Dona Maria sentou-se em um rolo de
Macaíba que havia encostado perto da porta, colocou a saia entre as pernas e,
segurando aquele pesado cachimbo entre os dentes dando generosas fumaçadas,
começou juntar os feixes de talos e amarra-los, formando as vassouras que
levava à feira para vender, de repente, trincando o canudo do cachimbo entre os dentes, começou
cantarolar uma cantiga que dizia assim:
“Otê, Padre Nosso com
Ave Maria
Securo camera qui tanganãzambe, aiô
Aiô, Taganãzambe, aiô
Calunga qui tom´ossemá
Calunga qui tom anzambi, aiô”
A cantiga era cantada como um
mantra, e cada palavra pronunciada, revelava um sorriso aberto e o brilho nos
olhos daquela senhora, que amarrava cuidadosamente cada feixe, sob aquela toada provavelmente aprendida com seus pais.
De fato a figura de Maria Senhora
não era algo que deveria ser visto por ninguém, pois, para os padrões da época
era um escândalo, uma mulher negra, seminua, livre, totalmente livre, de
paradigmas e regras de convivência, de pensamentos e comportamentos colonizados, a sociedade não estava preparada
para tamanha liberdade e, aquele estilo de vida escondido era o único espaço
onde se via um sorriso pleno daquela rainha nagô, que demonstrava como seus pais
viviam livres e felizes antes da diáspora, na terra em que eram autóctones e
verdadeiramente livres. Foi assim nessa liberdade que Dona Maria Senhora foi
criada, porém, tinha que se privar de vez em quando para poder obter o lucro do
seu trabalho.
E os meninos curiosos? Ouviram o
sibilar do assobio do amigo que ficou pastorando os cachorros e não contaram
conversa, correram que os pés batiam nas nádegas, e ao chegarem na beira do
açude, esperaram pelo outro que, quando chegou, os mesmos mal conseguiam
contar direito o que viram, de tão nervosos. Um falando na fala do outro,
atropelando as palavras, e o terceiro menino que não viu a cena os olhou com um
olhar de reprovação e disse: “o que
vocês mentem em um dia, o galo não canta em um ano! Vocês acham que alguém vai
acreditar nessa mentira cavernosa que vocês estão inventando? Vamos embora pra
casa que nossas mães já devem estar nos procurando”. E assim foram,
uns dizendo que estavam falando a verdade, o outro dizendo que era mentira, mas
nunca tiveram coragem de levar a história adiante, para não levarem uma surra
dos seus pais pela suposta mentira.
Maria Senhora depois de idosa, já
sem forças para cuidar de roçado, foi convidada à morar nos aposentos dos
empregados, da casa grande dos donos da Fábrica Tibiri, e trabalhar apenas como
cozinheira da família, a mesma aceitou, e ali terminou seus dias quando morreu
ainda lúcida, andando, cozinhando etc, onde “foi dormir e acordou morta”, como
dizem popularmente as pessoas ao retratar uma morte súbita.
Esta é uma estória, baseada em histórias. Qualquer semelhança com a realidade é apenas alegoria ou mera coincidência.

Bela história!!! Há que recuperar todas essas histórias que nos ensinam a ser humanos e não deixar os robôs tomarem conta
ResponderExcluirde tudo!!!!
Msravilha de história, nosso povo preto precisa que narrativas como essa,sejam espalhadas e dada ao conhecimento para que a reelaboração da historia da gente negra paraibana, ganhe corpo
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