Seu nome verdadeiro, quem sabia? Sempre que precisava apresentar algum documento de identificação, em alguma situação que fosse necessário, nomes e sobrenomes diferentes apareciam, uma hora era Crispiniano José da Silva, noutra Antonino José da Conceição, ou ainda Reverencio Petronilo de Lima, e o mais curioso, que chegava ser um deboche: Aldrabão Falaz Pereira da Costa, logo, não se sabia de fato quais desses nomes seria o seu verdadeiros, ou nenhum deles. Outra coisa que não se sabia do ilustre cidadão era sua origem, pois assim como seus nomes e sobrenomes diversos, cada documento também trazia um local de nascimento diferente, a saber: Passa e Fica – RN, São José da Lagoa Tapada – PB, Santa Maria do Cambucá – PE, Monsenhor Tabosa – CE. Só se sabe que, chegou à Santa Rita vindo de Rio Tinto, no final da década de 1960, junto com trabalhadores da antiga fábrica de tecido dos Lundgren que havia falido naquele município, e os mesmos migraram para a cidade dos canaviais, para trabalharem nas mesmas atividades, na Companhia de Tecidos Parahybana – CTP, a antiga Fábrica Tibiry.
Destacado na foto, Cambalacho, carregando sua mala de madeira, juntamente com ex-funcionários da Companhia de Tecidos Rio Tinto na vinda para Santa Rita.
Como passava a maior parte do dia fora de casa, tendo que adquirir na conversa e na tramoia, do cafezinho ao prato de comida, sua casa, simples, ficava situada na localidade do Sítio do Marinheiro, numa pequena ribanceira, um imóvel de sala e cozinha, construído em alvenaria, mas, com quase nada dentro, apenas uma rede armada, uma cadeira, um tamborete com uma mala de madeira em cima, onde guardava as poucas peças de roupa, quase todas iguais, ou pelo menos em tons de cores parecidos, já que Cambalacho sempre usava a mesma aparência: calça social marrom, camisa de mangas curtas de botões azul clara, e chapéu de massa marrom na cabeça além do seu inseparável cigarro de fumo de rolo, chamado “Boró”. Além da rede, cadeira, tamborete e mala, a casa ainda tinha um fogão à carvão feito de barro, uma lata com pó de café ao lado, que quase nunca foi usado, uma chaleira, um quadro de Santa Bárbara na parede com fitas vermelhas amarradas e uma coroa de flores de plástico ao redor, que fora retirada de cima um caixão em pleno enterro após Cambalacho convencer a família do defunto que o mesmo lhe havia prometido em vida a coroa de flores como lembrança, e embaixo do quadro um atajé com um copo de água e um pequeno castiçal de porcelana, esse cenário compunha o que era, mais um abrigo do que uma casa, cuja situação sanitária do bairro na época era complicada, e o banheiro, chamado de latrina, ficava do lado de fora, feito apenas por um cercado de palhas de coqueiro com um buraco cavado no chão, coberto por um tapume de tábuas.
A rotina de Cambalacho era a mesma de segunda à sábado, ainda de madrugada estava no mercado central de Santa Rita, ou das cidades vizinhas como Bayeux, Cruz do Espírito Santo, Pedras de Fogo, Mamanguape, para onde ia de carona, que conseguia fácil, e geralmente ainda conquistava na conversa o dinheiro para o cafezinho com a pessoa que lhe fornecia o favor. Chegando nesses mercados ou feiras livres, Cambalacho procurava as barracas de jogo, ou de cartas, ou de Bozó, onde, no blefe, iniciava o jogo sem colocar antes o dinheiro da aposta sobre a mesa, e como sempre ganhava alguma coisa, com o dinheiro que ganhava pagava as rodadas que tinha perdido, e ainda lhe sobrava dinheiro para o restante do dia.
Depois de ganhar dinheiro no jogo, seguia para as barracas onde vendiam deliciosas refeições caseiras, para comer o seu sagrado prato de inhame com carne de peito, costela ou frango guizado com muita “graxa” por cima, como chamam o molho das carnes nessa região, acendia seu boró, e saia à cantarolar em busca de uma nova vítima para suas investidas.
As abordagens às pessoas eram diversas, e até para conseguir um gole de “pau dentro” (aguardente de cana curtida com raízes e cascas de árvores aromáticas) ele tinha uma conversa pronta, chegava para o dono da barraca e dizia que aquela beberagem não era legítima porque não tinha determinada casca dentro, que a verdadeira “pau dentro” só se adquiria a partir da casca aromática do Cedro e do Babatenon, independente das outras que ali tivessem, a após minutos de discussão, lançava sua célebre frase “eu só acredito vendo”, o que fazia o dono da barraca, já aborrecido com a dúvida posta sobre seu produto, encher um copo americano pela boca e ofertar como cortesia, “pois tome, você só não acredita vendo? Então experimente e diga se aí não tem Babatenon nem Cedro?!”. Cambalacho entornava aquele copo repleto da beberagem, já com um sorriso no canto da boca, e bebia lentamente, deliciando-se como à um néctar dos deuses, apreciando o sabor diferenciado de cada ingrediente ali curtido, terminando sua conquista como um troféu.
O único dia que Cambalacho se resguardava (em tese) era o domingo, pois nesse dia ele ia logo cedo para a primeira missa na Igreja Matriz, ouvir os sermões do Pe. Paulo Koelen, e passar o restante do dia se balançando na sua rede, fumando seu boró, comendo de caíco com farinha, regado a café feito no seu fogão de barro. À exceção do domingo no entanto, o seu ímpeto que fazia jus ao seu codinome era mais forte do que ele, logo, como não “perdia uma viagem”, cambalacho aproveitava a hora do ofertório e entrava na fila como qualquer outro fiel, para fazer sua doação à “Casa do Senhor”, no entanto, ao chegar junto da senhora que segurava o bisaco de dinheiro, perguntava-lhe no no ouvido: “tem troco pra 50?”, ao passo que a mesma respondia que deveria ter, haja visto a quantidade de dinheiro trocado que ali continha. Num piscar de olhos, ele tirava do bolso, um pedaço de papel de enrolar pão, recortado no tamanho de uma cédula de 50 cruzeiros, e mais rápido que a luz depositava no fundo do bisaco, de onde retirava quatro cédulas de 10, mostrando à fiel que consentia com a cabeça, confirmando o troco do que lhes fora enganado pelo olhar desatento.
Na volta para casa, sua parada era obrigatória em algumas bodegas que encontrava no caminho de casa, para tomar sua “góipada” de cana, comer torresmo, e jogar conversa fora, contando feitos fantasiosos de suas andanças pelo mundo, entre essas bodegas, a de Seu Valdemar, na Rua do Cantinho, de onde também comprava “um mercado” de gás (querosene) para seu candeeiro, em seguida na de Seu Vavá Guedes e Seu Bastos respectivamente na Rua Severo Rodrigues, onde dizia ser seu remédio para recuperar as forças depois de ter subido a ladeira do alto. Seu Bastos não vendia cana, mas Cambalacho tinha que parar lá para contar suas lorotas, e por fim, antes de chegar em casa, sua última parada era na de Seu Antônio Galego, na Rua São José, onde já embriagado, queria tomar uma meiota, mas Antônio, preocupado para que o cliente não caísse nos buracos das valas que tinham no percurso da sua casa, só lhes permitia uma única lapada de cana, antídoto necessário para “baixar o facho” de Cambalacho naquele dia, e mantê-lo em casa.
Um dia, Cambalacho acordou insatisfeito, com toda essa vida que levara, desde sempre, em tirar vantagens das pessoas com pequenos golpes cotidianos, que sustentavam sua vida medíocre e limitada então pensou grande e de forma determinada: “Vou entrar para a agiotagem”, e logo começou na solidão da sua rede, traçar planos e metas para concretizar seu novo objetivo, levantando-se posteriormente, disposto, e saiu pela rua, para sua primeira investida no seu novo empreendimento. E assim começou frequentar comércios e locais que não frequentava antes, se identificando como credor, prometia emprestar dinheiro com juros mais baixos do que os cobrados por outras pessoas em igual atividade, contudo, para adquirir o empréstimo, o beneficiado precisaria dar um sinal de 20% da quantia emprestada, como garantia, e com esses sinais ele juntava e ia montando o valor total de cada empréstimo.
A notícia se espalhou rápido entre os agiotas, que planejaram atentar contra Cambalacho, mas, a destreza do mesmo era ímpar, e seus desafetos não contavam que, todo plano do trapacento tinha todo um esquema arquitetado de início, meio e fim, e desconheciam justamente esse fim.
Um belo dia, Cambalacho simplesmente desapareceu, e as pessoas dos locais onde o mesmo, rotineiramente, fazia seu percurso cotidiano, começaram perguntar uns aos outros se o tinham visto, e ninguém sabia responder. O burburinho começou correr à boca miúda, chegando rapidamente, em menos de 24 horas que a conhecida figura não tinha dado o ar da graça naquele dia, ao ponto de pessoas que sabiam do seu endereço, irem até sua pequena casa e literalmente botarem a porta a dentro, porém, nada encontraram além daquele cenário vazio, da rede armada, mala sobre a cadeira, fogareiro de barro com o fogo apagado, e começou então um disse-me-disse pelas ruas de Santa Rita, de que “os agiotas mataram Cambalacho”, e assim a notícia foi se espalhando, não sabiam eles que o folclórico golpista, acostumado com a simplicidade, estava escondido em uma casa abandonada pertencente à Usina São João, no meio do nada, dentro do canavial, nas proximidades do açude de Reis, escondido, deixando o tempo passar e, quem sabe, sua figura caísse no esquecimento.
Certa feita, Cambalacho resolveu mudar sua aparência para poder circular pela cidade, retirou totalmente sua barba cheia, vestiu-se com trajes elegantes, que o mesmo furtou outro dia do varal da casa grande da Usina São João, certamente aquelas roupas pertenciam ao proprietário da indústria, botou sua roupa velha num saco e se dirigiu a pé pelo canavial. Chegando perto da localidade conhecida como “Volta do Quimba”, que fica na divisa entre os territórios da Usina com o centro da cidade, Cambalacho se deparou com um corpo sem vida caído à beira de um riacho, certamente de um agricultor, de meia idade, mesma altura que ele, e barbado, aparentemente acometido de mal súbito.
Após rezar um Padre Nosso por aquela alma vacante, e caminhar alguns metros, o impostor teve uma idéia que seria o desfecho da sua história na cidade de Santa Rita, deu meia volta, e vestiu aquele corpo com as roupas que trazia no seu bisaco, e seguiu sua caminhada rumo ao centro da cidade.
Ao passar de fronte ao cemitério, Cambalacho, vestido elegantemente, se dirigiu ao vigia do campo santo e lhes disse: “ali no riacho da Volta do Quimba tem um homem caído, não sei se está vivo ou morto pois tenho pressa e não tive tempo de constatar”, o senhor agradeceu, e fechou o portão do cemitério para ir ver o que aquele desconhecido lhe falou. Chegando no mercado, Cambalacho foi testar sua aparência, caminhando por entre as barracas das pessoas que já o conheciam, e constatou que o seu novo truque funcionou, pois absolutamente ninguém o reconheceu, no entanto, ao parar em uma das barracas para tomar um café pequeno, só ouvia o disse me disse do seu desaparecimento, quando de repente chegou um menino na porta do mercado e gritou “gente, gente, vocês não sabem o que aconteceu, acabaram de encontrar Cambalacho morto lá na Volta do Quimba”.
A notícia trazida pelo arauto mirim gerou grande alvoroço, ao ponto de diversos comerciantes deixarem seus pontos e saírem correndo para constatar o fato. Cambalacho esboçou um sorriso de canto de boca, satisfeito, terminou de degustar seu café e seguiu para a Praça Getúlio Vargas para continuar avaliando a repercussão da sua suposta morte.
Chegando à Praça, que é a central da cidade, sentou-se em um coreto defronte à Igreja Matriz, e observou que ali também as pessoas só comentavam sobre o achado, foi quando um motorista de taxi chegou eufórico com a notícia “gente, gente, eu vi com meus próprios olhos, o defunto é Cambalacho mesmo, e foi morte morrida. Curioso com a afirmação do taxista, o morto-vivo se dirigiu ao mesmo e perguntou o que o faria tirar essa conclusão, de “morte-morrida”? O taxista respondeu que o corpo estava emborcado, com o rosto em cima de uma pedra de lavadeira, e a pequena barranca tinha marcas de escorregões, onde o barro estava na sola da alpercata da vítima, o que levava crer que ele teria escorregado e caído de cara na pedra, tendo traumatismo, devido o rosto estar totalmente inchado. Cambalacho agradeceu pelas informações e pagou uma corrida com o mesmo taxista para deixa-lo em João Pessoa, nas proximidades da fábrica de Guaraná Sanhauá, de onde tomou destino ignorado, provavelmente para alguma pousada em busca de pernoite.
Na manhã seguinte, Cambalacho retornou à Santa Rita, descendo na Praça Getúlio Vargas para colher informações sobre o desfecho do ocorrido na tarde anterior, e encontrou uma grande multidão que se aglomeravam na porta da Igreja da Conceição, que fica na mesma praça que a Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia. Pessoas de várias idades, das mais novas às mais velhas, crianças, idosos, etc, se espremiam e buscavam ver algo que acontecia dentro da Igreja. Curioso, o enganador entrou numa loja de nome “Sapataria Gadelha” e perguntou ao comerciante de nome Pedro, o que estava acontecendo. Seu Pedro Gadelha, que era proprietário da loja respondeu: “é o caixão com o corpo de Cambalacho que acabou de chegar para ser velado, mas vão ter que enterrar logo, porque está muito inchado”.
Após agradecer pela informação, Cambalacho, elegantemente vestido com os mesmos trajes do dia anterior, atravessou a rua, e conseguiu entrar no seu próprio velório. No meio da Igreja estava o caixão, simples, de plástico roxo, doado pela prefeitura, algumas poucas flores dentro, colhidas e levadas pelas próprias pessoas que foram ver o corpo, e pendurada no crucifixo, a mesma coroa de flores de plástico que adornavam o quadro de Santa Bárbara na casa do suposto defunto.
Encantado com todo aquele cenário, pois coroava todo o seu plano, fechava sua história em Santa Rita, e abria um livro em branco para que Cambalacho escrevesse uma nova história em novo lugar, ele se aproxima do caixão e diz em alta voz: “ele foi um homem bom”.
O brado do homem desconhecido e elegante, fez com que todos(as) absolutamente silenciassem e prestassem atenção àquela figura enigmática e desconhecida que aparecera do nada. Cambalacho orgulhoso, encheu o peito de ar e fez um breve discurso, dizendo que aquele que ali estava sendo velado, nunca fizera mal à ninguém, que o conhecia de muitos anos, a quem lhe devia inúmeros favores, mas que o tempo os fizera se perderem, e nos desencontros da vida, se reencontravam naquele momento triste. Continuando seu discurso, investiu seu derradeiro golpe na boa vontade e opinião das pessoas, pegou a coroa de flores de plástico que adornava o crucifixo, o quadro de Santa Bárbara que estava exposto nos pés do mesmo e disse: “me permitam ficar com esta última lembrança do meu velho amigo, pois o mesmo, em vida, disse que não tinha ouro nem prata, mas tudo que tinha de valor simbólico era aquilo, e que lhe confiava a tutela após a sua partida”. Aplausos fervorosos eclodiram de todos os lados, ao passo que, Cambalacho, já satisfeito por não ter sido reconhecido por ninguém, e com a certeza, igual todos, de que aquele corpo ali era realmente seu, disse com voz firme: “podem fechar o caixão e fazer o enterro”, que foi obedecido pelos presentes.
Nos últimos minutos da permanência da sua imagem, totalmente modificada, de homem elegante e de aparência abastada, quando já entrava em um taxi para tomar destino ignorado, algumas pessoas o pararam e perguntaram: Senhor, qual o seu nome? Ao passo que, sem nem pestanejar, respondeu: “Robeto Ribeiro Coutinho Maroja Veloso Borges” e saibam vocês, que qualquer um que aparecer com esse mesmo nome, não passará de um Cambalacho. Entrou no taxi, e até hoje não se ouviu mais falar da sua pessoa nem do seu destino.
Esta é uma estória ficcional. Qualquer semelhança não passa de mera coincidência.


História digna de bom ficcionista mesmo... mas que poderia ser verdade,sem dúvida!
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