Da esquerda para a direita: Clarice, Cleonice (de camisa listrada), Egizonete e Francisca de Assis (a de menor estatura).
Era curiosa a forma das irmãs Moura se relacionarem, pois, apesar
de intrigadas, sempre iam juntas aos espaços sociais como igreja, mercado, festas, etc, no entanto, não davam um pio no trajeto, e quando encontravam algum(a) conhecido(a) ou alguém puxava conversa interagiam normalmente com a pessoa, mas entre elas nunca . Sem embargo, quando não tinha jeito e precisavam umas das outras, o faziam de forma genérica, como por exemplo, estando na mesa para a refeição, Nicinha dizia: "ai meu Deus, que vontade de passar uma manteiga nesse pão, mas não sei onde encontrar", a manteiga estava na frente dela, do outro lado da mesa, sendo usada por Francisca, que por sua vez dizia em voz alta: "vou colocar esta manteiga no centro da mesa, caso apareça alguém precisando usar irá encontrar aqui", e Nicinha então pegava a manteigueira, e nesse sentido elas iam se comunicando, se Egizonete fosse tomar banho e por ventura esquecesse a toalha, dizia alto: "Eita, meu Jesus, acho que roubaram a toalha do varal, pois não encontrei em canto nenhum e terei de sair do banheiro molhada", logo, Clarice que havia usado antes, pegava a toalha e pendurava na maçaneta do banheiro, respondendo em voz alta como se pensasse falando: "acabei de usar a toalha, vou deixa-la aqui na maçaneta da porta do banheiro para que seque mais rápido e ninguém pense que o ladrão a levou do varal". E assim se relacionavam as irmãs.
Nicinha era rezadeira afamada, onde, praticava o ofício sem que ninguém a houvesse ensinado, aprendera por intuição desde criança, quando na escola chegava algum colega adoentado, a mesma brincando pegava algum ramo verde, e rezava-lhe, onde, para espanto das pessoas, horas depois a criança estava disposta novamente, saltitante e serelepe. Por vezes, dizia que sua avó falecida, que também era rezadeira, lhe aparecia em sonhos e lhes ensinava as rezas que a mesma deveria desempenhar, e que eram para diversos fins: espinhela caída, olhado, cobreiro, dor de dente, cólicas menstruais, trabalho de parto difícil, torcicolo, etc. Também rezava pessoas que precisavam de emprego, amor, dinheiro, clientes para o comércio, além de rezar casas tidas como mal-assombradas.
Uma fama não muito boa que tinha Dona Nicinha era a de fofoqueira. Diziam a mesma dar conta da vida de toda a paróquia, e até mesmo do Padre, das Freiras do Hospital e até das outras Freiras que tinham um colégio no Alto das Populares, ninguém escapava à língua ferina de Nicinha rezadeira.
Quando acontecia algum crime na cidade, coisa difícil naquela época, os casos mais comuns eram de agressão física, roubo de galinha, traições matrimoniais etc, o Delegado antes de qualquer coisa, ia ter com a rezadeira, para averiguar se ela já não estivera sabendo de alguma coisa, e quase sempre sabia de fato.

A obsessão por informações a cerca da vida alheia era tão forte, que muitas vezes, quando era alguém conhecido(a) que procurava Nicinha para ser rezado(a), a mesma atrapalhava a reza inúmeras vezes com assuntos paralelos, tipo: "Ave Maria cheia de graça...mulher tu soubeste do que aconteceu com fulano... o Senhor é convosco.... eu quando soube fiquei estarrecida, nunca imaginei que... bendita sois vós entre as mulheres...que fulano fosse capaz de uma coisa daquelas....", ou então, durante a reza procurava saber da vida de quem estava sendo rezado, para depois assuntar com terceiros: "Estou benzendo este torcicolo no pescoço de fulana.... mulher fala a verdade, torcesse esse pescoço como?... pelo bem de Nossa Senhora, virgem imaculada, eu rezo a carne quebrada... fala a verdade mulher, eu sei que tu desmentisse esse pescoço na hora da safadeza com teu marido... em nome do Padre, do Filho e do Santo Espírito, amém...", assim ia levando a vida Nicinha, colhendo aqui, plantando ali, ouvindo acolá, levando para lá.
Mas um dia Nicinha não se deu muito bem, chegou uma das mulheres mais ranzinzas da Vila Operária Tibiri, Dona Auxiliadora, moradora da chamada "Rua 20", que era a última rua do bairro, com uma forte dor de cabeça, para que Nicinha rezasse.
A rezadeira pediu que Auxiliadora sentasse de costas para rua, pegou um ramo de Liamba, outro de Pinhão Roxo e um de Tipi, e começou rezar a cabeça de Çili, contudo, sua língua começou a coçar, e ela não aguentando conter sua natureza de coscuvilheira, pôs-se a rezar:
"Jesus Cristo e São Pedro Pelo Mundo andou
E São Pedro se assentou
Nossa Senhora lhe perguntou:
– O que tens tu, Pedro?
– Senhora, tenho uma dor de cabeça tão rija e tão forte
Que me parece que estou de morte.
– Pedro!
– Diz.
– Deus nasceu, Deus morreu e Deus ao céu subiu,
Bendita seja a mãe que este Filho pariu.
Eu te benzo, Maria,
Das dores de cabeça,
Como Nossa Senhora também benzia.
Em louvor de Deus e da Virgem Maria."
Ao terminar a benzedura, Nicinha disse à Çili: "mulher, eu soube de uma coisa que fiquei estarrecida, tu sabes quem é aqui no bairro, a mulher que vivia se assanhando para Dr. Virgínio Veloso Borges (na época dono da Fábrica Tibiri), e foi pega pela mulher dele na hora que a sirigaita lhe entregava um bilhete? Minha filha olhe, disse que foi uma pisa tão grande que a rameira levou da esposa dele, que até hoje ela manda de uma perna, tu sabes quem foi essa?"
Auxiliadora deu um pulo da cadeira, ficou vermelha, ofegante, já não reconhecia mais ninguém, só via uma névoa na sua frente, as carnes lhe tremiam mais do que vara verde, e com a voz embargada disse: "Olhe Nicinha, fofoqueira de ponta de rua, antes de sair dizendo o que não sabe, procure se certificar com quem sabe. Essa pessoa que você está falando sou eu, mas, jamais eu teria caso com Dr. Virgínio, nem com nenhum outro homem casado, porque eu sempre fui muito bem casada, e nada disso aconteceu, muito menos levei surra de ninguém. Aconteceu de eu entregar um bilhete ao mesmo, com o nome do meu irmão, pedindo emprego para ele na fábrica, e a esposa do Doutor viu e pediu para ver o papel, mas quando viu de que se tratava sorriu e se retirou, não teve nada disso. Olhe Nice, vou lhe rogar uma praga e minhas pragas pegam viu!? Por conta das suas fofocas, sua língua vai crescer tanto que quando você morrer, seu corpo vai no caixão e sua língua em cima de uma carroça dentro de outro ataúde, e vão ter que cavar duas covas, uma para você, outra para sua língua".
Após o incidente, Auxiliadora se retirou, e Nicinha teve que ser acudida pelos vizinhos que ouviram a confusão, e perceberam a rezadeira pálida e sem forças para se manter em pé.
Passaram-se os anos, e Nice foi ficando depressiva, silenciosa, reclusa, falando muito pouco, apenas o necessário. As maldades que a velha rezadeira fazia, como guardar um penico de ágata cheio de urina atrás da porta da frente, para jogar nas costas dos meninos que passavam gritando na calçada, já não fazia mais. A vara de goiabeira que guardava no fumeiro, em cima do fogão de carvão, que servia para bater nos gatos que vinham roubar carne seca, jogou fora, e passou à viver reclusa no seu quarto, de onde só saia para tomar banho ou fazer necessidades fisiológicas, pois até sua comida quem passou à lhe dar foi sua irmã Francisca, que colocava o prato por debaixo da porta.
Um dia, mais precisamente um domingo de manhã, logo após a Missa das 5h da manhã, correu um boato começando na porta da Igreja Matriz, entre as paroquianas que se reuniam todo domingo em baixo da torre para falarem da vida alheia. Esse boato dava conta de que Nicinha rezadeira havia falecido na noite anterior, e rapidamente o disse me disse tomou conta da cidade. Pessoas começaram chegar, curiosas, rondando a frente da casa, outras fingindo estarem tomando uma sombra embaixo das árvores, outras descaradamente paravam em frente à Escola Normal, cruzavam os braços e aguardavam alguma notícia oficial por parte das irmãs Moura, e aos poucos, tanto a Rua da Palmeira, quanto a José de Alencar que é na sua frente, divididas apenas pela linha férrea, iam se enchendo de gente, mas a casa permanecia fechada.
Finalmente, às 17hs, hora em que geralmente a maioria dos enterros acontecem, parou na porta da rezadeira uma carruagem funerária, algo nunca visto na cidade, puxada por dois grandes cavalos Manga Larga, e condutor vestido elegantemente de terno preto. As pessoas começaram se aproximar do veículo, que teve que ser alugado em Recife, já que nem em Santa Rita, muito menos em João Pessoa dispunham de tal, e o silêncio reinou, ouvia-se apenas o barulho das pisadas da grande multidão se aglomerando sob a poeira que se formara na rua ainda de barro, sem calçamento.
Finalmente, às 17:20h, Egizonete, vestida de preto, com um véu da mesma cor na cabeça e terço na mão, abre a porta de rolo da sua casa, e sem dizerem uma palavra sequer, as irmãs saíram sem a presença de Nicinha do seu lado. Ao passo que, por último, saíram da casa o condutor do veículo funerário, junto com seu ajudante, carregando um caixão de tecido roxo, e o depositaram no interior da carruagem. As pessoas se olhavam, algumas com ar de tristeza, outras de surpresa, quando, sem que esperassem, o condutor entrou mais uma vez à casa, e saiu com outro caixão, este menor, medindo cerca de 1,20m, que gerou um espanto coletivo, seguido de uníssono "Óóóóóóóóóóóóóóóóóó", pois, as pessoas sabiam da praga que Çili rogara há mais de 30 anos passados, mas que pensavam ser uma lenda urbana. Cabisbaixas, as irmãs entraram na carruagem funerária, sendo Francisca a última, que, antes de subir, virou-se para a multidão e disse em voz alta: "Por gentileza, não nos sigam. Cleonice não será sepultada no Cemitério Público, nem na Igreja, iremos sepulta-la num lugar onde a mesma determinou antes de morrer e deixou por escrito, agradeço a compreensão". E a carruagem seguiu, puxada pelos dois cavalos, perdendo-se de vista por entre a poeira da rua sem calçamento, e tomando destino ignorado.
Até hoje, o que se ouve dos boatos da época, é que, com vergonha de terem que enterrar a irmã em uma cova, e sua língua em outra, as irmãs Moura fizeram o sepultamento de Nice em um cemitério fantasma, que fica entre o Sítio Reis da Usina São João, e os limites com o vizinho Município de Cruz do Espírito Santo, onde só há ali cerca de 7 catacumbas, duas delas são: uma a de Nicinha, e a outra da sua língua.




Até hoje!
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